Por Padre Antônio Vieira (1655)
Mas daqui mesmo vejo que notais, e me notais, que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou, porque os pregadores do Evangelho, os homens que professam pregar e propagar a fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel, que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus, e significavam os pregadores do Evangelho, que propriedades tinham? Nec revertebantur cum ambularent: uma vez que iam, não tornavam (Ez. 1,12). As rédeas por que se governavam, era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto; mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer, porque sair para tornar, melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: e se esse semeador Evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado, se se armassem contra ele os espinhos, se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Todos estes contrários que digo, e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear, diz Cristo, mas com pouca ventura. Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos: Aliud cecidit inter spinas, et sim ul exortae spinae suffocaverunt iílud. Outra parte caiu sobre as pedras, e secou-se nas pedras por falta de umidade: Aliud cecidit super petram, et natum aruil, quia non habebat humorem. Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens, e comeram-no as aves: Aliud cecidit secus viam, ei concuícatum esi, ei volucres coeli comederuni illud. Ora, vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas, quantas há no mundo, se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras, e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras; a vegetativa, nos espinhos; a sensitiva, nas aves; a racional, nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no, e os homens? Pisaram-no: Concuícatum est ab hominibus, diz a glosa. Quando Cristo mandou pregar os apóstolos pelo mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: Ide, e pregai a toda a criatura (Mc. 16,15). Como assim, Senhor? Os animais não são criaturas? As árvores não são criaturas? As pedras não são criaturas? Pois hão os apóstolos de pregar às pedras? Hão de pregar aos troncos? Hão de pregar aos animais? Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho; porque, como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas; haviam de achar homens-homens, haviam de achar homens-brutos, haviam de achar homens-troncos, haviam de achar homens-pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas? Grande desgraça!
Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido, e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruil, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suifocaveruni iííud; trigo comido: Volucres coeli comederuni iílud; trigo pisado: Concuícatum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da Missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na Ilha dos Aroás; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocantins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas, matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Natum aruit quja non habebat humorem? E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Concuícatum est? Não me queixo, nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.
Agora torna a minha pergunta. E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a casa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel, com quem argílistes, temos a prova. Já vimos, como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, quando iam, não tornavam: Nec revertebantur cum ambuíarent (Ez. 1,12). Lede agora dois versos mais abaixo e vereis que diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam à semelhança de um raio ou corisco: Ibant et revertebantur in simil itud inem fuíguris coruscantis (Ez. 1,14). Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimau nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade que nesta quarta e última parte do trigo se restouraram com vantagem as perdas dos demais; nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheuse, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento. Etfecitfructum centuplum.
Oh! que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh! que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira, porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos; dá-me grande exemplo o semeador, porque depois de perder a primeira, a segunda, e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também? Por que não dará fruto? Por que não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as discretas, só essas são as que duram, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o mundo, Será bem que o mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há de ser. Eis aqui por que eu dizia ao princípio que vindes enganados como pregador. Mas para que possais ir desenganados como sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei de pregar, e aos mais que ouvirdes esta quaresma.
§II
Semen est verbum Dei.
O trigo do Evangelho é a palavra de Deus; os espinhos, as pedras, os caminhos e a terra boa, os diversos estados do coração do homem. Se a palavra de Deus é tão eficaz, por que vemos tão pouco fruto?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.