Por Machado de Assis (1879)
Henriqueta pertencia à classe de mulheres que sabem ornar-se, qualquer que seja a qualidade do estofo ou o corte do vestido; tinha a elegância nativa. Era alta, cheia, musculosa, talhada com amor no mais belo mármore humano. Talvez não agradassem a alguns os olhos pardos e pequeninos; mas o olhar que chispava deles devia por força angariar adoradores ou amigos; amigos sim, que eram da natureza dos que falam mais aos sentimentos do que aos sentidos. Eram pequenos de si, e pequenos porque a testa era larga, uma testa serena e pura; tão pura e tão serena como o pensamento que ardia no interior. Nunca esse pensamento cogitara no mal; ignorava-o, que é o melhor meio de o não atrair. A boca, que era delicadamente fendida sobre um queixo macio e redondo, não conhecera ou não pronunciara jamais uma só palavra de cólera, porque a própria travessura de Henriqueta, quando criança, era das que se acomodam sem gritos nem lágrimas. Henriqueta era o tipo da complacência, da bondade, da resignação branda e modesta. Quem lho não lesse na figura e nas maneiras, compreendê-lo-ia no fim de alguns dias de trato.
A pontualidade com que ela obedeceu ao desejo do irmão provava o que já sabemos — isto é, que era de sua parte dócil, e que também sentia a ausência do chefe da família. O jantar foi simples, modesto e tranqüilo; nenhum tumulto, nenhuma excessiva alegria. Os donos da casa deram o tom aos convivas; cada um destes compreendeu que faltava alguém pessoa e que era acertado não acordá-lo do sono.
— Esteve a teu gosto? perguntou Henriqueta de noite quando o último convidado tinha saído.
— Tu és um anjo!
— Um anjo de cozinha, concluiu Henriqueta rindo.
A casa em que moravam era a mesmo do Engenho Velho. Tinham-na deixado logo depois da morte do coronel; mas três meses depois voltaram para ali, menos por motivo econômico que de piedade filial. Queriam ter presente a lembrança do pai — agora que a dor podia suportá-la, havendo já o tempo feito a sua ação inevitável e benéfica. Julião poucas semanas depois de receber o diploma de engenheiro, alcançou uma nomeação do governo, que o obrigou a ir à província do Rio durante poucas semanas; dali veio, tendo concluído a comissão mais depressa do que se esperava. Logo depois obteve outra nomeação que o não obrigava a sair, mas a ficar na Corte. Era muito melhor para ele e para ela; e nisto chegamos aos primeiros dias de 1864.
III
Naqueles primeiros dias de 1864, veio do Norte um parente de Julião, que lá estivera alguns anos como inspetor da Alfândega, e agora tornava, exonerado a seu pedido, porque tinha de ir liquidar uma herança em S. Paulo. Não se demorou muito tempo nesta Corte, mas em um dos poucos dias em que aqui esteve convidou Julião a jantar, e jantaram efetivamente juntos, eles e mais um rapaz, também do Norte, que o acompanhava a passeio e devia regressar no fim de poucas semanas. Era bacharel este rapaz, exercera já um lugar de promotor público, no sertão da Bahia, e tinha mais ou menos desejo de vir para a Câmara dos Deputados: ambição que não destoava da pessoa e dos talentos, antes parecera seu natural caminho.
— O Pimentel é o melhor orador que tenho ouvido, disse o ex-inspetor da alfândega.
— Sim?, perguntou Julião com interesse e cortejando o conviva.
— Pode ser, disse este, mas é porque você me ouviu sempre e com as orelhas do coração. A cabeça, se me ouvisse, seria de outro parecer.
O parente de Julião contestou energicamente; Pimentel, vendo-se objeto de uma conversa laudatória, desviou habilmente as atenções: dentro de poucos minutos falavam da situação política. Como Julião empregasse uma comparação matemática, a conversa descambou de repente nas matemáticas; depois, enveredaram pela literatura, e se não acaba o jantar, não era impossível que penetrassem na teologia. Ora, Pimentel, ainda nos assuntos estranhos à ciência do Direito, mostrava-se discreto e lido, sem afetação, nem temeridade, dizendo somente o que sabia, e dizendo-o com modesta segurança do saber. Julião separou-se dele levando a melhor impressão do mundo; ofereceu-lhe a casa; Pimentel ofereceu-lhe os seus serviços na província.
— Deixa-nos breve?
— Daqui a um mês.
— Mas tornará como deputado? disse Julião rindo.
— Isso...
— Isso há de ser certo, clamou o ex-inspetor da alfândega.
Três dias depois encontrou-os Julião no teatro; num dos intervalos conversaram muito; noutro levou-os Julião ao camarote, onde estavam a irmã e a tia. A apresentação foi fácil, a conversa interessante, a recíproca impressão excelente. Uma semana mais tarde, encontraram-se em uma loja da rua do Ouvidor, a família Trindade e o dr. Pimentel; este noticiou que acompanhava o parente da família a S. Paulo, mas que esperava voltar sozinho, para regressar à província natal. Na véspera de sair, dirigiu-se ao Engenho Velho, e deixou lá um cartão de despedida.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.