Por Machado de Assis (1876)
— Não tenho medo de nada nem de ninguém.
— Pode ser, interveio o desembargador; mas se visse o que eu vi uma vez, estou certo de que ficaria apavorada.
— Alguma bruxa?
— O diabo?
— Um defunto à meia-noite?
— Um duende?
Cruz empalidecera.
— Falemos de outra coisa, disse ele.
Mas o auditório tinha a curiosidade aguçada, e o próprio mistério e recusa do desembargador faziam crescer o apetite. Os homens insistiram; as senhoras fizeram coro com eles. Cruz imolou-se ao sufrágio universal.
— O que eu vi foi há muitos anos, disse ele; ainda assim conservo a memória fresca do que me aconteceu. Não sei se poderia ir até o fim; e desde já estou certo de que vou passar uma triste noite…
Uma risadinha de Maria do Céu interrompeu o desembargador.
— Prepare o auditório! disse ela. Vamos ver que a montanha dá à luz um ratinho.
Alguns sorriram; mas o desembargador estava sério e pálido. Bento Soares ofereceu-lhe uma pitada de rapé, enquanto Vasconcelos acendia um charuto. Fez-se grande silêncio; só se ouvia o tic-tac do relógio e o movimento do leque de Maria do Céu. O desembargador olhou para os interlocutores, como a ver se era possível evitar a narração; mas a curiosidade estava tão pendente de todos os olhos, que era impossível resistir.
— Vá lá! disse ele. Contarei isto em duas palavras.
Quando eu estudava em S. Paulo raras vezes gozava as férias todas na fazenda de meu pai; ia a Cantagalo passar algumas semanas e voltava logo para o Rio de Janeiro, aonde me chamava o meu primeiro e último namoro, paixão de quatro anos, que a Igreja consagrou e só a morte extinguiu. Nas férias do terceiro ano fui morar no primeiro andar de uma casa da Rua da Misericórdia. No segundo morava um homem de quarenta anos que parecia ter mais de cinqüenta, tão alquebrado e encanecido estava. Éramos os dois moradores únicos, salvo o meu pajem, que fazia o número três. O vizinho de cima não tinha criado.
A primeira vez que o vi foi logo no dia seguinte da minha entrada na casa. Ao passar pelo corredor dei com ele na escada, que ia do primeiro para o segundo andar, de pé, com um livro aberto nas mãos. Tinha um pé no quinto e outro no sexto degrau. Fiquei a olhar de baixo para ele durante algum tempo; não o conhecendo, entrei a suspeitar se seria algum ladrão. O pajem explicou-me que era o morador de cima.
Dois dias depois, estando eu à noite em casa, perto das onze horas a ler na minha sala, senti alguém bater-me à porta; fui abrir; era o vizinho, que descera, com um livro na mão, talvez o mesmo que lia dois dias antes na escada, não sei. — Venho incomodá-lo, não? disse ele.
Fiz um gesto duvidoso, e fiquei a olhar para ele como quem espera uma explicação.
— O morador da loja, continuou ele, disse-me hoje que o senhor é estudante. Talvez me possa explicar uma coisa. Sabe hebraico?
— Não.
— É pena! disse ele consternado.
Ficou alguns instantes silencioso, a olhar para o livro e para o teto. Depois fitou-me, e disse:
— Ando a ver se meto dente numa passagem de Jonas.
Dizendo isto, sentou-se abrindo o livro sobre os joelhos. Joelhos chamo eu, porque é esse o nome daquela região; mas o que ele tinha naquele lugar das pernas eram dois verdadeiros pregos, tão magro estava. A cara angulosa e descarnada, os olhos cavos, o cabelo hirsuto, as mãos peludas e rugosas, tudo fazia dele um personagem fantástico. Esteve algum tempo ainda silencioso, até que continuou:
— Há aqui um versículo de Jonas, é o 11 do cap. IV, em que leio: “E então eu não perdoarei a grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil homens, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda?”. Como entende o senhor este versículo?
A idéia que o vizinho era doido apoderou-se logo de meu espírito. Que outra coisa seria, vindo consultar a semelhante hora, a um vizinho de três dias, sobre um texto de Jonas? Também eu não tinha medo nesse tempo — tal qual como a Sra. D. Maria do Céu —, deixei-me estar quieto na cadeira, a olhar sem responder, contendo uma grande vontade de rir.
— Que lhe parece? repetiu o vizinho.
— Que quer o senhor que me pareça?
— “Homens que não sabem discernir a mão direita da esquerda”; — frase que, geralmente, tem um sentido óbvio, e vem a ser nada menos que isto: o profeta refere-se às crianças ninivitas. Jeová quer perdoar a cidade por amor dos meninos que ela encerra. Mas eu dou do texto uma interpretação que vai assombrar o mundo.
— Sim?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Sem olhos. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876.