Por Machado de Assis (1876)
— Que lhe darei eu para que se não esqueça de mim? disse Gustavo daí a pouco, em ocasião em que pôde murmurar-lhe estas palavras.
— Nada, disse a moça sorrindo.
— Ama-me então como sempre? perguntou ele.
— Como sempre!
Todo o resto do diálogo foi assim por este gosto, como naturalmente o leitor e a leitora compreendem, se é que já não passaram pelo mesmo como eu sou capaz de jurar.
Marianinha era muito graciosa, além de bonita. Os olhos eram pequenos e vivos; ela sabia-os mover com muita gentileza. Não era mulher que do primeiro lance fizesse apaixonar um homem; mas com o tempo tinha o condão de insinuar-se-lhe no coração.
Foi isto justamente o que aconteceu com o nosso jovem Gustavo, cujo namoro durava já mais tempo que os outros. Começara por brinquedo, e acabara sério. Gustavo foi-se a pouco e pouco sentindo preso nas mãos da moça, de maneira que o casamento, coisa em que não pensara nunca, entrou a surgir-lhe no espírito como uma coisa muito desejável e indispensável.
— Afinal, pensava ele, devo acabar casado, e mais vale que seja com uma boa menina como aquela é, alegre, afetuosa, educada... A educação acabá-la-ei eu, e o terreno é próprio para isso; farei dela uma verdadeira esposa.
Com estas disposições, deixou Gustavo as suas habituais distrações, teatros, passeios, ceatas e todo se entregou ao cultivo do amor. D. Leonarda viu que a assiduidade era maior e concluiu razoavelmente que desta vez iria o barco ao mar. Para animar a pequena falou-lhe na conveniência de casar com pessoa que estimasse, e não deixasse de dar duas ou três esperanças ao pretendente.
As coisas foram assim andando de modo que o bacharel assentou de ir pedir a moça à avó por ocasião dos anos dela (a avó), que era a vinte e sete de outubro. Estavam então no dia dez do referido mês. Em novembro podiam estar unidos e felizes.
Gustavo conversou com alguns amigos, e todos lhe aprovaram a resolução, mormente os que freqüentavam a casa de D. Leonarda e não queriam ficar brigados com o futuro neto da viúva do major.
Um desses freqüentadores, comensal antigo, de passagem lhe observou que a moça era um tanto caprichosa; mas não o fez com a idéia de o afastar da
pretensão, o que era difícil naquele caso, mas antes por lhe aplanar a dificuldade mostrando-lhe o caminho que devia seguir.
— O coração é excelente, acrescentou este informante; nisto sai à avó e à mãe, que Deus tem.
— Isto é o essencial, disse Gustavo; caprichos são flores próprias da idade; o tempo as secará de todo. Gosto muito dela, e quaisquer que fossem os seus defeitos, casaria com ela.
— Oh! sem dúvida! Pela minha parte desde já lhe afianço que hão de ser felizes.
Tudo corria portanto comme sur des roulettes. O pedido estava prestes; prestes o casamento. Gustavo imaginou logo um plano de vida, mediante o qual ele seria no ano seguinte deputado, logo depois presidente de província, e um dia alguma coisa mais. A imaginação pintava-lhe a glória e o prazer que daria a sua mulher; imaginava um filhinho, uma casa cercada de laranjeiras, um paraíso...
CAPÍTULO III
Ora, logo na noite do dia 10, estando a conversar com a namorada, esta lhe perguntou pela fita azul. Eram passados seis meses desde a noite em que ela lha dera. Gustavo empalideceu; e a razão era que, não estando naquele tempo apaixonado como agora, nunca mais pusera olhos em cima da fita. Murmurou como pôde alguma coisa, que ela não ouviu, nem se lhe deu de ouvir, por haver logo percebido a sua perturbação.
— Naturalmente não sabe onde a pôs, disse ela com ar azedo.
— Ora!...
— Talvez a lançasse à rua...
— Que idéia!
— Estou a ler isso no seu rosto.
— Impossível! A fita está lá em casa...
— Pois bem, veja se a traz amanhã.
— Amanhã? balbuciou Gustavo.
— Perdeu-a, já sei.
— Oh! não; amanhã trago-lhe a fita.
— Jura?
— Que criancice! Juro.
O espírito de Gustavo achava-se nessa ocasião na situação de um homem que se deitasse numa cama de espinhos. Virava-se, revirava-se, espinhava-se, e daria cem ou duzentos mil-réis para poder ter a fita ali mesmo no bolso. Queria ao menos ter certeza de que a acharia em casa. Mas não tinha; e o rosto da moça como que lhe anunciava a tempestade de arrufos que o esperaria no dia seguinte se não levasse a fita.
Efetivamente Marianinha não se riu mais nessa noite. Gustavo saiu mais cedo que de costume e foi dali direito como uma flecha para casa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.