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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Um retraimento agora poderia causar como na Turquia um abalo revolucionário em toda a Rússia. E um ódio nacional: os jornais, pela exaltação da sua cólera, pelas narrações permanentes das crueldades e das opressões turcas sobre os cristãos; os comités de Moscovo pela sua vasta influência; o sacerdócio russo por uma prédica irritada e fanática mantêm o espírito nacional num furor permanente contra o Turco; a guerra e considerada santa, sem nenhuma ideia de conquista, de anexação; é possível que a plebe e a rica burguesia mercantil de Moscovo e das cidades pensem em Constantinopla; mas as classes militares, a aristocracia, sabem bem que nem a Inglaterra nem a Áustria lhes permitiriam aumentar o território: e realmente por um puro sentimento, pela libertação dos cristãos que se batem. E no fundo os dois governos – russo e turco são impelidos por um fanatismo contrario.

Qual será o resultado da luta? A desproporção de forças na fronteira é grave: os Russos têm duzentos e setenta e cinco mil homens de infantaria, vinte mil cavalos e novecentas peças de artilharia. Os Turcos têm cento e cinquenta mil homens de infantaria, três mil cavalos e duzentos e dezasseis canhões. Este número inferior é compensado por esta consideração: que o Turco é atacado e o Russo ataca – ora é conhecido que o Russo é o mais vagaroso e

insuficiente dos exércitos de ataque e o Turco é um admirável soldado de defesa. Ninguém como ele para manter uma posição: é ainda uma qualidade que a sua religião lhe deu: a impassibilidade.

Os Russos decerto podem mobilizar rapidamente grandes forças, mas aos Turcos basta-lhes levantar o estandarte do Profeta para que todo o maometanismo, sejam quais forem as dissidências de seita, corra às armas.

Kalil Paxá, o embaixador da Turquia em Paris, dizia há dias, como o velhaco sorriso de velho maometano:

– Nós esperamos: e a verdadeira guerra havemos de fazê-la com a Arábia e a Índia.

Uma das infelicidades da Turquia é talvez não ter realizado a sua aliança com a Pérsia. A Pérsia podia fazer uma terrível diversão sobre a fronteira asiática da Rússia, e obrigá-la a dividir as suas forças. Mas a aliança persa, segundo os bem informados, foi concluída com a Rússia e o exército persa está armado, disciplinado, instruído, comandado pela Rússia.

Que fará a Inglaterra? Há aqui mesmo mil opiniões. A mais geral, há tempos, era a de absoluta indiferença.

«A Rússia», dizia-se, «não se atreve a tentar uma anexação: mas mesmo que ela vá a Constantinopla, que importa à Inglaterra?» O caminho da Índia não fica por isso menos livre. Além disso, é digno que a Inglaterra tome o partido de massacradores fanáticos e de devedores insolúveis? E depois de que serve fazermos esforços para conservar a integridade de um país que todos os dias, pela sua relaxação e a sua imprevidência se vai desorganizando a si mesmo? Que se lucrou com o dinheiro, o sangue, que se prodigalizou na guerra de 52? Para que se há-de intervir num duelo que a história e a fé tornam inevitáveis? Assim se falava. Hoje, porém, perante a crise, a linguagem mudou. «Não se poderia realmente compreender», diz-se agora, «que a guerra não tenha como resultado, dada a vitória da Rússia, uma anexação de território»: daí a desmembração do império e o Russo em Constantinopla: mas então, a Rússia estaria no Mediterrâneo, com um dos fortes portos do mar: o poder inglês teria uma diminuição e a sua posse sobre a Índia, um primeiro perigo. Dai vem-se à conclusão que é necessária fatalmente a intervenção. Diz-se mesmo que à mais pequena escaramuça perdida pelos Turcos – a Inglaterra ocupará Constantinopla. A esquadra, reforçada, está em caminho de Bezoka-Bay – que é a antecâmara de Constantinopla.

Que a Inglaterra concorreu de certo modo para a guerra é evidente: concorreu com os seus meetings sentimentais e humanitários no Verão passado, dando ânimo aos Russos para seguirem a sua ideia agressiva: concorreu com a presença da esquadra em Constantinopla pouco depois, dando ânimo aos Turcos para resistirem à pressão pacifica da Europa: concorreu depois com a ideia do protocolo que, sendo um reconhecimento tácito da justiça e da força da Rússia, lhe deu um aumento de exigência e de hostilidade – e, sendo uma nova humilhação imposta à Turquia, a tomou mais despeitada e mais difícil de condescendências.

É provável, porém, que a guerra não rompa por estas semanas próximas. No protocolo diziase que, dado o caso de uma recusa da parte da Turquia, as potências acordariam numa decisão ulterior a tomar: mas esta decisão, sejam quais forem as combinações diplomáticas que a precedam, terá sempre este resultado – deixar a Turquia em frente da Rússia – e o resultado final, portanto, será igualmente a guerra.

En attendant, o ministro das Finanças apresenta o seu orçamento organizado como se a Inglaterra não tivesse a menor probabilidade de uma complicação militar. E um orçamento cheio de confiança, pacífico e próspero.

A despesa é calculada em setenta e Oito milhões setecentas e noventa e quatro mil e quarenta e quatro libras. A receita é calculada em setenta e nove milhões e vinte mil libras! O Tesouro tem, pois, o saldo a favor de duzentas e vinte e seis mil libras!

(continua...)

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