Por Eça de Queirós (1925)
Porque se núo fez mais cedo A difficuldade da letra, cerrada, nervosa, vertiginosa, a confusão das folhas em desordem e sem numeração, a convicção de que aquillo tudo já fora visto por Ramalho Ortigao, quando tomara conta da revisao da Cidade e as Serras e de que nada haveria alli de realmente notavel ou novo, tudo isso o poderia explicar até certo ponto, e até certo ponto concorreu para o longo silencio. Porém a razao principal foi a ausencia dos filhos d' Eça de Queiroz, exilados depois de 1910, vivendo longos annos no estrangeiro, ora n'uma terra, ora n'outra, sem residencia fixa nem installaçáo definitiva, levando uma vida instavel que nunca lhes permit tiu o estudo e a organisaçao de todos aquelles manuscriptos desconhecidos.
Foi portanto em principios de 1924, que, ao abrir a mala dos originaes para procurar um autographo, resolvi, com meu irmão Alberto, lançar hombros á tarefa monumental de ordenar, coordenar, numerar, lêr— poderia dizer decifrar.
VIII
as duas mn e tantas paginas mahugorlptas da obra posthuma que agora damos a publico.
Porém outra surpreza nos esperava ainda : do Rio de Janeiro chegava-me um dia, datada de de Julho de 1924, uma carta extremamente interessante do Snr. José Vasco Ramalho Ortigão, em que o filho do grande escriptor me dizia : a Entre a enorme quantidade de papeis que recebi de Lisboa com a li- vraria de meu Pae, encontro varies manuscriptos d'Eqa de Queiroz, algumas cartas de Fradique e provas corrigidas e ori ginaes da Gapital. Estas ultimas muito difficeis de organisar...' E com effeito, pouco tempo depois, chegava-me do Brasil um volumoso pacote de manuscriptos que vinha augmentar milagrosamente o valor da minha descoberta. Era de facto uma segunda fórma da Capital, com cerca de cem paginas impressas, corrigidas, refundidas, augmentadas, com longas tiras colladas ás paginas, cobertas de emendas e accrescentos a lapis ; eram ainda cinco cartas de Fradique, ineditas. e finalmente esse curiosissin» Conde d' Abranhos, o mais estranho dos manus criptos de meu Pae, todo escripto d'um folego, de fio a pavio, quasi sem uma emenda, n'uma letra vertiginosa de rascunho, completo, perfeito, e a lapis.
Muitos mezes nos levou a decitraçho e a copia dos manuscrfptos. Fof um trabalho benedlotino, exhaustivo, ao mesmo tempo cheio de surprezas, de de desanimos, d'enthusiasmos, em que caminhavamos de descoberta em descoberta, atravez d'um mundo novo, reconstituindo lentamente vidas inteiras, personagens, aventuras, dra.mas, desesperos, desillusóes. Era o melancolico Arthur Corvello que se esboçava ; era a Genoveva que resplandecia, aureolada do prestigio das civilisações superiores que atravessara ; era Camillo Serrão que se agitava febrilmente na sua arte esteril, o astuto Abranhos subindo á força d'habilidades na politica, e o triste Godofredo, resignado, reorganisando a sua pobre vida : toda uma população que nos era intensamente viva, movendo-se n'um mundo intensamente real, com os seus sentimentos, os seus defeitos, as silag qualidades, os amo- res, as suas ambiçõee e os seua ridiculos !
Assim, onde esperavamu encontrar rascunhos, notas soltas, esboços, descobriamos romancea, nove}lag, contos, reminiscencias de viagens, toda uma obra, lançada ao papel no primeiro Jacto da inspiração, mas completa na sua estructura definitiva na sua intenção.
Porque tinharn sido abandonados trabalhos ? Ê proverbial a ancia de peçfeiçáo de meu Pae, artista sempre insatisfeito, desejando sempre melhor, criticando os seus proprios livros, achando-os sempre incompletos, imperfeitos, inferiores ao seu desejo.
Da sua immensa obra, que, depois de publicados os sete livros d'esta ultima série, attíngírá vinte e quatro volumes, apenas cinco romances tinham sido dados a publico durante a sua vida. São de certo esses cinco livros as cinco joias maximas da sua obra; porém, a desproporção entre o muito que escreveu e o pouco que publicou é caracteristica. O seu feitio Indifferente ao lucro, indifferente á popularidade, a sua natureza toda d'enthusiasmos rapidos, que o fazia por de parte, desinteressar-se de repente da idéa da vespera para se entregar inteiramente á nova idéa, fazem comprehender até certo ponto que elle deixasse na gaveta tantos trabalhos por completar. Mas é sobretudo ás cartas ao seu editor, Ernesto Chardron, que vamos buscar os dados mais seguros para o estudo da sua maneira de trabalhar e para a historia dos originaes d'estes ultimos sete volumes.
Que elles eram destinados á publicidade é incontestavel. Com effeito, tanto A Capital, como A Tragedia da Rua das Flores, e talvez mesmo O Conde d'Abranhos, faziam parte d'um iargo plano que infelizmente nunca chegou a ser executado.
A idéa d'esta gérfe de publicações — que faz pensar n'uma pequena Comédie Humatne, reduzida ás proporções mais modestas de «Comedia Portugueza» —apparece pela primeira vez n'uma carta para o editor, datada de Newcastle, em 5 de Outubro de 1877, e d'onde destaco os seguintes trechos: . . . Eu tenho uma idéa, que penso daria excelente resultado.
uma collecçao de pequenos romances, não excedendo de 180 ca 200 paginas, que fosse a pintura da vida contemporanea em Portugal: Lisboa, Porto, provincias, politicos, negocian tes, fidalgos, jogadores, advogados, medicos, todas as clas ses, todos os costumes, entrariam n'esta galeria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.