Por Camilo Castelo Branco (1889)
— « Meu anjo!… Que graça ! Pois eu te conto. Como o poeta se chama não sei, nem importa. Imagina tu que és um poeta, fantástico como Lamartine, vulcânico como Byron, sonhador como MacPherson e voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina que o tédio desta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonisa descabelada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes passatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinária de espírito, um anjo de eloquência, um demônio de epigrama, enfim, uma destas criações miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa no coração mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris ? Achas nova a expressão, não é assim ? Um coração de toucinho parece-te uma ofensa ao bom senso anatômico, não é verdade ? Pois, meu caro dominó, há corações de toucinho estreme. São os corações, que resumam óleo em certas caras estúpidas… Por exemplo… Olha este homem redondo, que aqui está, com as pálpebras em quatro refegos, com os olhos vermelhos como os de um coelho morto, com o queixo inferior pendente, e o lábio escarlate e vidrado como o bordo de uma pingadeira, orvalhada de banha de porco… Esta cara não te parece um grande rijão ? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho ? »
— « Creio, creio ; mas fala mais baixo que o desgraçado está gemer debaixo do teu escalpelo… »
— « És tolo, meu cavalheiro ! Ele entende me lá !… É verdade, aí vai a história do espanhol, que tenho que fazer… »
— « Então queres deixar-me ? »
— « E tu ?… Queres que eu te deixe ? »
— « Palavra de honra que não! Se me deixas, retiro-me… »
— « És muito amável, meu querido Carlos… »
— « Conheces-me ?! »
— « Essa pergunta é ociosa. Não és tu Carlos! »
— « Já falaste comigo na tua voz natural ? »
— « Não ; mas começo a falar agora. »
E com efeito falou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metálica e insinuante. Cada palavra daqueles lábios misteriosos saía vibrante e afinada como a nota de uma tecla. Tinha aquele não-sei-quê que só escuta nas salas onde falam mulheres distintas, mulheres que obrigam a gente a prestar fé aos privilégios, às prerrogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.
« Uma aventura de romance ! » dizia ele lá consigo, enquanto o dominóveludo, conjeturando o enleio em que pusera o seu entusiasta companheiro, continuava a fazer gala do mistério, que é de todas as alfaias aquela que mais alinda a mulher! Se elas pudessem andar sempre de dominó! Quantas mediocridades em inteligência rivalizariam com Jorge Sand! Quantas fisionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abal el-Kader!
— « Então quem sou eu ? » - prosseguiu ela. — « Não me dirás ?… Não dizes… Pois então, tu és Carlos, e eu sou Carlota… Fiquemos nisto, sim ? »
— « Enquanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te de « anjo » . »
— « Como quiseres ; mas sinto dizer-te que não és nada original! Anjo!… É um apelido tão safado como Ferreira, Silva, Souza, Costa… et cetera. Não vale a pena questionarmos : batiza-me à tua vontade. Ficarei sendo o teu « anjo de Entrudo ». E a história ?… Imagina que te possuías de um amor impetuoso por essa mulher, que fantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um sorriso afetuoso através da máscara, um aperto convulsivo de mão, uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dois, três anos depois. E essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais literata, cada vez mais radiosa, protesta eloqüentemente contra as tuas instâncias, declarando-se muito feia, indecentíssima de nariz, horrível até, e, como tal, pesa-lhe na consciência matar as tuas cândidas ilusões, levantando a máscara. Tu que a não crês, instas, suplicas, abrasas-te num ideal que toca as extremas do ridículo, e estás capaz de lhe dizer que te abolas o crânio com um tiro de pistola, se ela não levanta a cortina daquele mistério que te dilacera uma por uma as fibras do coração. Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natércia, e ela diz-te que se chama Custódia, ou Genoveva para te aguar a poesia desses nomes, que, na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito espirituoso a outro, nem um lançar de olhos para as máscaras, que a fixam como quem sabe que está ali uma rainha, envolta naquele manto negro. Por fim, a tua perseguição é tal que a desconhecida Desdêmona finge assustar-se, e sai contigo ao salão do teatro para levantar a máscara. Arfa-te o coração na ansiedade de uma esperança : sentes o júbilo do cego de nascimento, que vai ver o sol ; estremeces como a criança a quem vão dar um bonito, que ela não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu coração infantil ambiciona neste mundo… Ergue-se a máscara !… Horror !… Vês um nariz… Um nariz-pleonasmo, um nariz homérico, um nariz maio que o do duque de Choiseul, onde cabiam três jesuítas a cavalo !… Recuas !… Sentes despregar-se-te o coração das entranhas, coras de vergonha e foges desabridamente… »
— « Tudo isso é muito natural. »
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.