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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Nenhum deles designa época; mas quem tiver, como eu, particular conhecimento do indivíduo, pode, sem grande erro cronológico, datar os três manuscritos.

O Coração reina desde 1844 até 1854. São aqueles dez anos em que nós vimos Silvestre fazer tolice brava.

Em 1855 notamos a transfiguração do nosso amigo, que durou até 1860, época em que tu já tinhas trocado o Património da estima dos teus conterrâneos pelas lentilhas do Novo Mundo. Não viste, pois, a transição que o homem fez para o estômago, sepultura indigna das santas quimeras, que aconteceram na mocidade, e consequência funesta da má direção que ele deu aos Projectos, raciocínios e sistemas da cabeça. Podemos assinar tempo ao terceiro volume, desde 1860 até fim de 61, em que o autobiógrafo se desmanchou do que era para se arranjar doutro feitio.

Silvestre, como sabes, tinha muita lição de maus livros. Olha se te lembras que os seus folhetins eram um viveiro de imoralidades vestidas, ou nuas, à francesa. Jornal em que ele escrevesse morria ao fim do primeiro trimestre, depois de ter matado muitas ilusões. Quem hoje desembrulha um queijo flamengo, e lê no invólucro um folhetim de silvestre, mal pensará que tem entre as mãos o passaporte de muita gente para o inferno. Não há muito que eu, despejando uma quarta de mostarda num banho de pés, li o papel, que a contivera, e achei o seguinte período de um folhetim do meu saudoso amigo:

“Diz Petrônio que fora o medo que inventara as divindades.

Deus é o que é. O homem é o pequeníssimo bicho da terra, de

que fala o Camões.

Entre Deus e o homem, só a soberba estúpida do homem podia

inventar convenções, concordatas, obrigações e alianças.

O sagüi é muito menos estúpido e mais modesto. Come, bebe,

dá cabriolas, faz caretas ao mau tempo, coça-se ao sol, retouça-se à

sombra, vive, e acaba feliz, porque se não receia de vir a ser homem.

A estolidez do homem! Diz ele empapado de vaidade tola:

‘Deus tem os olhos em mim!’ Que importância! Deus tem os olhos nele!

Se assim fosse, havia de ver bonitas coisas o criador do homem que mata seu irmão!

Os olhos nele, para quê? Para envergonhar-se a cada hora da sua obra!...

É a blasfêmia em todo o seu asco!

Rebalsa-te em sangue, miserável vampiro! Emperla os teus cabelos, meretriz, que deixas morrer tua mãe de fome! Mãe infame, come

aí em toalhas de Flandres o preço da desonra de tua filha! Ostentaivos, vermes, aos olhos de Deus, que estão pasmos em vós!...”

Ainda bem que o fragmento findava nisto, senão eu teria a imprudência de to dar inteiro nesta cópia, em que senti as repugnâncias do pulso. Vê tu que missionário era aquele Silvestre! Que ceifa de almas fez o empreiteiro das trevas inferiores naqueles anos!

Eu de mim pude salvar-me, estudando, como sabes, a teologia a fundo. Tu também te salvaste, penso eu, justamente porque não sabias coisa nenhuma de teologia e acreditavas na religião de teus pais, visto que a base fundamental da tua crença era a caridade. Acertou de ser isto num tempo em que tu pedias esmola para as freiras de Lorvão e eu, também contigo, pedia esmola no Teatro de S. João, para o poeta Bingre.

Recorda-te, Novais; mas não chores. Faz como eu: ergue o peito de sobre a banca do trabalho e sacode a lájea que te está pesando nas costas... Olha a vaidade! Teremos nós sepultura com lájea!? Conta com um comarozinho de terra, e umas papoulas na Primavera, e uma tábua preta com um número branco. A aritmética há de perseguir-me além da morte!

Atemos o fio.

Os manuscritos de Silvestre careciam de ser adulterados para merecerem a qualificação de romance. É coisa que eu não faria, se pudesse. Acho aqui em páginas correntemente numeradas sucessos sem ligação nem contingência. Umas histórias em princípio, outras que começam pelo fim e outras que não tem fim nem princípio. Pode ser que eu, alguma vez, em notas, elucide as escuridades do texto, ou ajunte às histórias incompletas a catástrofe, que sucedeu em tempo que o meu amigo se retirara da sociedade, onde deixara a víscera dos afectos.

No volume denominado Coração encontro algumas poesias, que não traslado, por desmerecerem publicidade, sobre serem imprestáveis ao contexto da obra. Não designam as pessoas a quem foram dedicadas, nem me parecem coisa de grande inspiração. Silvestre, em poesia, era vulgar; e a poesia vulgar, mormente na pátria dos Junqueiros, dos Álvares de Azevedo, dos Casimiros de Abreu e dos Gonçalves Dias, é um pecado publicála. Sonego, pois, as poesias, em abono da reputação literária do nosso amigo. Basta de preâmbulo.

PRIMEIRA PARTE

CORAÇÃO

Coisas há hi, que passam ser sem cridas, E coisas cridas há sem ser passadas...

Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.

CAMÕES. (Soneto.)

SETE MULHERES

I

O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.

(continua...)

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