Por Camilo Castelo Branco (1883)
Um ano depois, Bernardo fizera admiráveis progressos. Lia com inteligência do que lia; escrevia com acêrto, e aprendera só consigo a gramática portuguêsa, visto que seus amos lhe tinham permitido esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permitir ao servo ciência que os amos não tinham! O Senhor de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta ciência do Lobato. E, talvez, tivesse razão.
Em casa de fidalgo desta bitola, quando um criado adquire a confiança dos amos, há sempre para isso
uma de duas razões. Ou o criado, devasso como êles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna estimável pelo z\~elo honroso com que procura encobrir-lhas, já que não pode repreender-lhas.
Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e desmoralizados a não poder ser mais. Quiseram captar a benevolência do servo, não para aconselhá-los, que não desciam êles a isso, mas para acompanhálos em emprêsas difíceis, daquelas em que o braço do plebeu é muitas vêzes a salvação das costas do fidalgo.
Não o conseguiram nunca; mas também não tiveram de arrepender-se da confiança dêsse convite. Bernardo exercia uma influência admirável sôbre os nobres libertinos. Era a superioridade da inteligência. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acêrto das suas idéias, e da linguagem escolhida com que o enjeitado se saía! O fato de ser enjeitado era em Bernardo, talvez, um motivo de superstição naquela casa. Se êle fôsse reconhecido filho dalgum borra-botas, como em linguagem nobiliárquica se chama um plebeu, decerto lhe não dariam a importância de o considerarem pela inteligência. Mas o mistério, a possibilidade de ser vergôntea infeliz dum tronco ilustre, cingiam-lhe a fronte duma auréola entre nuvens, que poderia talvez, mias tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz aquêle fruto do amor criminoso d'alguma raça nobilíssima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!
Tudo isto era possível; mas o que êles julgariam, entretanto, impossível, é o que vai ler-se.
- IV -
A família que Bernardo servia compunha-se de pai, mãe, três filhos, e uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze anos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos também não; e a sensível menina precisava amar, porque o seu coração era da têmpera daqueles que não sabem conceber sòmente o amor com a condicional do casamento.
Eulália não tinha a mais superficial tintura de instrução, e por isso não podemos, em boa-fé, chamar-lhe romântica. Não era janeleira, nem rapinhava da papelaria dos irmãos o perfumado papel-cetim para depósito de sensaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe doida.
Era uma mulher, e nisto está dito tudo.
Êste Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem românticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristeza inconsolável como nenhuma. "A minha organização - dizia êle - é um abôrto, uma enfermidade incurável".
Eulália simpatizava com aquela tristeza, e com a figura do rapaz. Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via nêle o que ela chamava "cara de pessoa de bem". E, conquanto eu deteste esta maneira de classificar as caras, porque não conheço as "caras de pessoas de mal" tenho-me visto em circunstâncias forçadas de dizer o mesmo, porque há neste val de lágrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas são as piores caras.
Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir à cozinheira da casa, e menos se lambraria de acender o fogo do amor no ilustre coração duma Lucena, com quem em tôda a sua vida falara três vêzes.
Eulália passou da doce simpatia ao amor abrasado, e do amor abrasado à paixão violenta. Por mais finos e eloqüentes olhares que a fogosa menina lançou ao escudeiro, o escudeiro, ou não dava por êles, ou explicava-os de qualquer modo, contanto que não ousasse ensoberbecer-se daquele fato disparatado. E Eulália desesperava-se!
- V -
Francisco de Lucena espreitava a oportunidade de empurrar a filha para fora de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burgueses ricos, e encontrou um negociante dalto bordo, que recebeu a proposta com afabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que permitia aos filhos de seu filho apelidarem-se Lucenas.
O pai anunciou à filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de fina educação, d'alguma inteligência, de brios que o ouro lhe estimulava, e de orgulho superior à sua classe, porque, há 50 anos, a classe comercial era muito humilde, suposto já trabalhasse para esta época de barões comerciais, que, digam lá o que disserem, é o mais palpitante triunfo da democracia. Para me não meter em graves questões sociais, entenda-se que D. Eulália repeliu a felicidade que seu pai lhe anunciara com tanto júbilo, e declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias fechada no seu quarto, sem querer ver sol nem lua.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Uma praga rogada nas escadarias da forca. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1782 . Acesso em: 28 jun. 2026.