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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Transmontando o Sol, desceu das cumeadas um toldo pardacento a desdobrar-se pelos plainos, a confundir-se no fumo das aldeias, a identificar-se com o escuro dos arvoredos. Fez-se um silêncio progressivo e rápido em redor de mim. Começava a noite sem bafejo de vento. Nem já a rama dos pinhais rumorejava aquele seu saudoso sonido, que se me afigura sempre a inarticulada toada de mui remontadas e remotíssimas vozes de mundos que giram nas profundezas do espaço.

Tirei-me do meu enleio contemplador e retrocedi pelo mal sabido atalho, antes que a cerração completa me tolhesse de enxergar ao longe o alvejar da casa, entre dois outeiros. Não valeu a precaução- As abas do declivoso montado, eram muitos os caminhos a cruzarem-se. Segui um à sorte; e, como prova de que a sorte nem em escolha de caminhos deixou de ser-me sempre boa, segui o pior e o mais transviado de todos. Por volta de sete horas, depois de dobrar uns cerros inabitados, achei-me numa póvoa, onde me disseram que eu, por aquele caminho, chegaria mais cedo a Roma que ao local onde me destinava.

A pessoa que respondeu assim à minha pergunta falou-me de uma janela envidraçada, e acrescentou:

- O senhor, se não sabe o caminho, como de facto não sabe, pelo tino é incapaz de acertar. O que eu posso fazer é mandar alguém ensiná-lo; mas, se não é força ir hoje, pernoite nesta casa, e amanhã irá. Verdade é que, nesta noite, custa muito a ficar em casa estranha; porém....

- Todas as casas são estranhas para mim... - respondi eu.

- Pois então, aceite esta que se lhe oferece da melhor vontade. O portão está aberto. Lá vou abaixo recebê-lo.

Entrei num vasto pátio, contornado de arcadas semelhantes às da claustra monástica. Logo em seguida, o hospitaleiro senhor do magnífico edifício saiu do escuro da arcaria e disse-me antes de me ver de perto:

- Eu já sei quem recebo em minha casa, e o meu hóspede, se tiver memória dos seus relacionados de há quinze anos, também me vai conhecer.

- Pela voz ainda não - disse eu, encarando-o, sem vislumbres de vaga recordação.

- Ali temos luz - replicou ele. - Muito velho e desfigurado devo estar, se nem à candeia me reconhecer você!...

Examinei-o à luz atentamente; e, como nem assim me acudisse à memória semelhança de tal homem, retorqui:

- O senhor talvez esteja enganado comigo. É provável que nos vejamos agora pela primeira vez.

- Então qual de nós é o romancista? Você, que os anda a procurar, ou eu, que estou manso, quieto e estúpido em minha casa? Quererá você ir dizer em alguma novela que encontrou num recanto do Minho um visionário chamado Afonso de Teive...

- Afonso de Teive! - exclamei eu. - Afonso de Teive... o senhor!? Essas barbas...

essa nutrição...

- E estes óculos... - atalhou ele.

- É verdade... esses óculos...

- E estes tamancos!...

- Pois, deveras, o senhor é Afonso de Teive... tu és Afonso... aquele que tinha em Lisboa...

- Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um faetonte, e uma berlinda, e cavalos árabes, e paixões ideais, e muitas paixões sem faísca de ideia...

Sou eu! E este homem gordo, intonso, de óculos, de tamancos, este lavrador que aqui vês, possuidor de um tesouro que os reis do universo disputam há dezanove séculos uns aos outros, e as nações disputam aos reis, e os indivíduos disputam às nações, e cada indivíduo disputa e destrói em si próprio e com as suas próprias mãos: sabes que tesouro eu possuo, homem?

- A paz?

- A felicidade.

- Isso é uma história! - atalhei eu. - Pois tu achaste a felicidade?... e tu és.6 realmente Afonso de Teive?... e estes dois pequenos - perguntei eu, quando vi dois meninos entre seis e oito anos a correrem em direitura dele - são teus filhos decerto? - São, e lá em cima não ouves o tropel que fazem os outros seis?

- Pois tens oito filhos?

- Espero o nono brevemente.

- E és...

Retive a palavra. Ia eu perguntas-lhe grosseiramente se ele era feliz com oito filhos; pergunta desculpável ao Afonso, que eu conhecera desde 1845 até 1851.

(continua...)

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