Por Machado de Assis (1870)
Queres pôr termo à festa? Um brinde a Vênus, filha Do mar azul, beleza, encanto, maravilha; Nascida para ser perpetuamente amada.
A Vênus!
(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com água perfumada em que os convivas lavam as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)
Queres tu, mimosa naufragada,
Ouvir de hemônia serva, em lira de marfim,
Uma alegre canção? Preferes o jardim?
O pórtico talvez?
MIRTO
Lísias, sou indiscreta;
Quisera antes ouvir a voz do teu poeta.
LISIAS
Nume não pede, impõe.
CLÉON
O mando é lisonjeiro.
LÍSIAS
Pois começa.
Cena II
Os mesmos, um ESCRAVO
ESCRAVO
Procura a Mirto um mensageiro.
MIRTO
Um mensageiro! a mim!
LÍSIAS
Manda-o entrar.
ESCRAVO
Não quer.
LÍSIAS
Vai, Mirto.
MIRTO
(saindo)
Volto já.
(sai o escravo)
Cena III
LÍSIAS, CLÉON
CLÉON
(olhando para o lugar onde Mirto saiu)
Oh! deuses! que mulher!
LÍSIAS
Ah! que pérola rara!
CLÉON
Onde a encontraste?
LÍSIAS
Achei-a
Com Partênis que dava uma esplêndida ceia; Partênis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da-moda, Sabes que Vê fugir-lhe a enfastiada roda; E, para não perder o grupo adorador,
Fez do templo deserto uma escola de amor. Foi ela quem achou a náufraga perdida,
Exposta ao Vento e ao mar, quase a expirar-lhe a vida. A beleza pagava o emprego de uma esmola; Dentro em pouco era Mirto a flor de toda a escola.
CLÉON
Lembrou-te convidá-la então para um festim?
LÍSIAS
Foi um pouco por ela e um pouco mais por mim.
CLÉON
Também amas?
LÍSIAS
Eu? não. Quis ter à minha mesa
Vênus e o louro Apolo, a poesia e a beleza.
CLÉON
Oh! a beleza, sim! Viste já tanta graça,
Tão celestes feições?
LÍSIAS
Cuidado! Aquela caça
Zomba dos tiros vãos de ingênuo caçador!
CLÉON
Incrédulo!
LÍSIAS
Eu sou mestre em matéria de amor.
Se tu, atento e calmo, a narração lhe ouvisses Conheceras melhor o engenho desta Ulisses. Aquele ardente amor a Lísicles, aquele
Fundo e intenso pesar que à sua pátria a impele, Armas são com que a astuta os ânimos seduz.
CLÉON
Oh! não creio.
LÍSIAS
Por quê?
CLÉON
Não vês como lhe luz
Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?
LÍSIAS
Sim, têm muita expressão... para iludir meninos.
CLÉON
Pois tu não crês?
LÍSIAS
Em quê? No naufrágio? Decerto.
Em Lísicles? Talvez. No amor? é mais incerto. Na intenção de voltar a Lesbos? isso não! Sabes o que ela quer? Prender um coração.
CLÉON
Impossível!
LÍSIAS
Poeta! estás na alegre idade
Em que a ciência da vida é a credulidade. Vês tudo azul e em flor; eu já me não iludo. Pois amar cortesãs! isso demanda estudo, Não vai assim, que as tais abelhitas do amor Correm de bolsa em bolsa e não de flor em flor.
CLÉON
Mas não as amas tu?
LÍSIAS
Decerto... à minha moda;
Meu grande coração co'os vícios se acomoda; Sacrifícios de amor não sonha nem procura; Não lhes pede ilusões, pede-lhes só ternura. Não me empenho em achar alma ungida no céu: Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu. Não peço amor ao vinho; irei pedi-lo às damas? Delas e dele exijo apenas estas chamas Que ardem sem consumir, na pira dos desejos. Assim é que eu estimo as ânforas e os beijos. Lá protestos de amor, eternos e leais, Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortais Somos todos assim.
CLÉON
Ai, os mortais! dize antes
Os filósofos maus, ridículos pedantes, Os que não sabem crer, os fartos já de amores, Esses, sim. Os mortais!
LÍSIAS
Refreia os teus furores,
Poeta; eu não quisera amargurar-te, e enfim Não podia supor que a amasse tanto assim. Cáspite! Vais depressa!
CLÉON
Ai, Lísias, é verdade,
Amo-a como não amo a vida e a mocidade; De que modo nasceu esta afeição que encerra Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra Por que é mais bela ao sol e às auras matinais? Amores estes são terríveis e fatais.
LISIAS
Vês com olhos do céu coisas que são do mundo; Acreditas achar esse afeto profundo,
Nestas filhas do mal! Se a todo o transe queres Obter a casta flor dos célicos prazeres, Deixa a alegre Corinto e todo o luxo seu; Outro porto acharás: procura o gineceu. Escolhe aquele amor doce, inocente e puro, Que inda não tem passado e vive no futuro. Para mim, já to disse, o caso é diferente; Não me importa um nem outro; eu vivo no [presente.
CLÉON
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma ode de Anacreonte. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 12-25, jan. 1870.