Por Machado de Assis (1874)
— Pode vir!
— Dá cá cera!
— Dê-me o ás de paus.
— Onde está a fôrma?
— É furado?
— É seguro.
— Mano, não me quebre o limão.
— Corto.
— Olha, Lucinda, que bonito limão saiu este!...
— Rei...
— Água de cheiro?
— Valete...
— Não me pise os pés, sr. Batista.
— É dama... Paguem!
— Dá cá o tabuleiro.
— Quem dá cartas?
— Pois eu cuidei que o solo estivesse furado, dizia Tibúrcio no fim deste diálogo. Os ouros estavam com a sra. D. Maria, e se não se descarta do valete, bem podia ser que eu o encontrasse em quarto, e estava perdido.
— A prima jogou mal, dizia D. Angélica. Devia esperá-lo nos outros.
— Eu esperava nas copas.
— As copas estavam seguras.
Às nove horas terminou o jogo, serviu-se o chá, saiu Tibúrcio, e todos foram dormir.
Amanheceu o dia de domingo com um belíssimo sol; era um verdadeiro dia de entrudo. Desde manhã puseram-se os tabuleiros em ordem para a batalha. Carlos e Benjamim preparavam as caldeiradas d’água e falou:
— Ia eu agora lá dentro, quando encontrei na sala de jantar a um canto, adivinhem o quê? Encontrei seu filho Benjamim quebrando limões no ombro de minha filha! Que desaforo! Fiquei sem saber de mim... Isto se atura, prima? Cão! Ter o atrevimento de... Prima, manda dar uma sova no seu pequeno...
Neste tempo já Lucinda tinha entrado na sala e ouviu a narração da mãe com um espanto tão fingido que parecia um diplomata.
— Estás ai!... exclamou D. Maria. Deixe estar que me pagarás lá em casa!
— Mas que é?...
D. Angélica mandou chamar Benjamim.
O rapaz que estava na cocheira, correu ao chamado da mãe.
— Que é isso, Benjamim? pois então tu tens o desaforo, o atrevimento de não respeitar tua tia nem a minha casa...
Benjamim ficou mais admirado que se visse a cascata de Paulo Afonso; olhou para todos que tinham os olhos nele e perguntou:
— Mas que é mamãe? eu não sei de que fala.
D. Angélica referiu a acusação que lhe fazia D. Maria; o rapaz negou alegando que não saíra debaixo e apelou para o testemunho de um moleque, o qual, como era o portador das cartas entre os dois namorados, não teve dúvida em dizer que o jovem Benjamim desde que descera para a cocheira, não saíra de lá ocupado como estava em seringar os homens que passavam.
D. Angélica voltou-se para a prima.
— Você enganou-se, prima.
— Mas se eu vi!...
Carlos tinha subido também, e, ou para salvar o irmão a quem não tinha raiva, ou para terminar um incidente que perturbaria a festa, confirmou o dito do moleque. Mas D. Maria que tinha visto, insistia e punha em dúvida a asserção dos sobrinhos e do moleque.
— Foi engano! diziam uns.
— Titia estava preocupada e pareceu-lhe ver...
— Qual engano nem preocupação! Pois eu vi.
Entrara no meio desta bulha o jovem Batista, trajando casaca, luvas de pelica, e gravata branca. Veio de sege para chegar intacto, apesar de morar perto. Ouviu a discussão, informou-se do que era e concluiu que devia ser engano de D. Maria. Esta insistiu na afirmativa.
— Dá-se muitas vezes, disse Batistinha sentenciosamente, que a nossa imaginação figura objetos reais quando eles são simplesmente hipotéticos... A história tem um exemplo: Bruto dizem que viu a sombra de César. Foi naturalmente a impressão imaginária que lhe produziu a espécie de presença real. O órgão visual tem fenômenos extravagantes; os recentes trabalhos da ciência...
As moças voltaram as costas e foram para a janela, exceto Teresa que ficou ouvindo o discurso do namorado. Os rapazes desceram à cocheira.
Batista continuou o discurso. Como tinha lido uns livros de ciência, explicou às senhoras qual a organização do nervo óptico, e como por acaso falasse em olhos bonitos, lembrou se D. Angélica de contar uma anedota acerca dos olhos do finado Sanches em 1834. O incidente acabou assim, D. Maria convencida de que realmente fora imaginação sua.
— Agora, se D. Angélica quiser dar-me a honra de uma palavra em particular, disse Batista, ficar-lhe-ei sumamente penhorado.
— Agora reparo, disse D. Angélica. Que trajo para dia de entrudo!
— Minha senhora, respondeu Batista, os grandes sentimentos não conhecem entrudo!
— Fala muito hem este moço, pensou D. Maria.
A dona da casa foi com Batista para o interior.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um dia de entrudo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, jun.-ago. 1874.