Por Machado de Assis (1877)
— Agora as coisas mudam, dizia ele; eu vou corrigir tudo isso.
Entraram num hotel, onde Germano almoçou razoavelmente, combinando quanto possível a discrição com as exigências do estômago. Os empregados notaram a intimidade de Marques com o maltrapilho, e acharam singular que se tuteassem dois homens, um dos quais parecia não ter o preconceito do lenço de assoar. Mas, ao cabo de tudo, como o almoço era farto e a paga certa, serviram a Germano com a mesma solicitude com que o fariam a outro freguês mais apurado.
No corredor do hotel, Germano disse a José Marques:
— Deste-me a vida; sinto agora que era uma loucura o que ia fazer. Com que expressões te agradecerei tamanho benefício?
— Ora, adeus, redargüiu José Marques. Vou daqui à praça. Aparece daqui a duas horas no armazém.
— Sim.
— Onde moras?
— No Beco do Cotovelo.
— Bem; vai ao armazém daqui a duas horas.
II
Duas horas depois Germano entrava no armazém de José Marques. A esperança iluminava os olhos, até pouco antes sombreados de suicídio. Não obstante, entrou constrangido e envergonhado.
José Marques manteve a palavra e desempenhou o papel que a Providência lhe confiara naquela manhã. Chamou Germano ao escritório, e aí lhe ofereceu um lugar de guarda livros em casa de um seu amigo.
— Aceitas?
— Se aceito!
— Pois estás arranjado.
— Mas... como...
— Não digas nada! Não quero ouvir observações nem dar explicações. Achei-te hoje à beira da morte por falta de um almoço; dei-te o almoço. Mas como a situação pode repetir-se amanhã ou depois, ou em outro qualquer dia ofereço-te, dou-te agora uma coleção de almoços, que te hão de livrar da morte!
José Marques disse isto batendo-lhe com a mão no ombro, e rindo do ar acanhado de Germano, que não sabia se havia de olhar para ele, se para o chão.
— Sou amigo, não? perguntou Marques rindo.
— Imenso!
— Um bom amigo, não é?
— Excelente.
— Amigo para as ocasiões, porque isto de fazer obséquios em circunstâncias ordinárias não é grande mérito. O mérito é fazê-los nas ocasiões graves e solenes.
— Justamente.
— Por exemplo, esta. Vi-te de longe triste e cabisbaixo; entrei; soube que a causa da tua tristeza era não teres comido ontem. Imediatamente acudi às duas precisões que tinhas; comer logo alguma coisa, e obter um emprego...
— É verdade, meu bom Marques, disse Germano; vejo que ainda te lembras de mim, que apesar da minha miséria...
— Qual, miséria!
— Vejo que, embora maltrapilho...
— Maltrapilho! exclamou José Marques inspecionando a roupa do amigo. Não estás finamente vestido, mas... mas precisas de mudar isso... é verdade, precisas...
— Irei ganhar o meu primeiro mês.
— Oh! não te apresentes assim em casa do Madureira. Chama-se Madureira o dono da casa para ondes vais. Não te apresentes assim que não te há de acreditar.
— Entretanto...
— Arranjaremos roupa; não se há de perder a viagem por falta de uma vela latina... José Marques riu-se da graça que achou em si próprio, empregando aquela imagem náutica, e levou o amigo a uma casa de roupa, à Rua do Hospício, onde lhe abriu um razoável crédito. Não se sabe o quantum; mas o novo guarda-livros não ousou ir além de uma andaina de roupa, não só porque tinha vergonha de abusar dos obséquios de José Marques, como porque, examinando casualmente um segundo paletó, viu o dono da casa menos solícito do que quando ele escolheu o primeiro. Que importa? Um paletó bastava para trinta dias; rigorosamente sobrava.
Despedidos os dois, encaminhou-se Seixas para o Beco do Cotovelo, com a roupa debaixo do braço, e a alma nadando em gratidão.
— Oh! dizia ele consigo, há ainda almas generosas neste mundo! A caridade, a afeição, os bons sentimentos não fugiram dele. Nobre Marques! Não se envergonhou de apertar a mão e ajudar a um antigo companheiro de balcão, menos feliz que ele! Menos feliz, muito menos! Ele está bem, pode liquidar, se quiser, ao passo que eu não tenho para comer. O que são destinos! Deus queira que isto agora não seja simples aragem de fortuna. Farei o que puder, e é a última experiência; se falhar...
O pensamento não ousou concluir a frase.
No dia seguinte apresentou-se Seixas em casa de Madureira e tomou posse do cargo. O patrão simpatizou desde logo com o guarda-livros, ou foi talvez prevenido pela narração que José Marques lhe fizera de seus infortúnios. O certo é que o tratou com excepcional benevolência, correspondendo Seixas desde logo e estabelecendo-se entre ambos uma amizade, que devia aproveitar mais tarde ao ex-suicida do Passeio Público.
— Então, que tal parece o Seixas? Perguntava José Marques três dias depois a Madureira.
— Um excelente homem!
— Não é verdade?
— Excelente; ao menos por ora a impressão é esta.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.