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#Comédias#Literatura Brasileira

Tu só, tu, puro amor

Por Machado de Assis (1994)

D. MAN. Que tem?

CAM. Vede: um simples nome vos faz estremecer de cólera. Mas, abrandai a cólera, que não sou vosso inimigo, mui ao contrário; amo-vos, e a ela também... e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita).

CENA II

D. MANUEL DE PORTUGAL

Este homem! Este homem!... Como se os versos dele, duros e insossos... (Vai à porta por onde Caminha saiu, e

levanta o reposteiro.) Lá vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma cousa. Que não sejam versos (Ao fundo aparecem D. Antônio de Lima e D. Catarina de Ataíde).

CENA III

D. MANUEL DE PORTUGAI, D. CATARINA DE ATAIDE, D. ANTÔNIO DE LIMA

D. ANT. Que espreitais aí, senhor D. Manuel?

D. MAN. Estava a ver o porte elegante de nosso Caminha. Não vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, lá vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.

D. ANT. Também eu. Tu, não, minha boa Catarina. A rainha espera-vos.

(D. CATARINA faz uma reverência e caminha para a porta da esquerda.) Ide, ide, minha gentil flor... (A D. MANUEL) Gentil, não a achais?

D. MAN. Gentilíssima.

D. ANT. Agradecei, Catarina.

D. CAT. Agradeço; mas o certo é que o Senhor D. Manuel é rico de louvores...

D. MAN. Eu podia dizer que a natureza é que foi convosco pródiga de graças; mas, não digo; seria repetir mal aquilo que só poetas podem dizer bem.

(D. ANTÔNIO fecha o rosto.) Dizem que também sou poeta, é verdade; não sei; faço versos. Adeus, Senhor

D.Antônio... ( Corteja-os e sai. D. CATARINA vai a entrar, à esquerda. D. ANTÔNIO detém na.)

CENA IV

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE

D. ANT. Ouviste aquilo?

D. CAT. (parando). Aquilo?

D. ANT. "Que só poetas podem dizer bem" foram as palavras dele.

(D. CATARINA aproxima-se.) Vês tu, filha? Tão

divulgadas andam já essas cousas, que até se dizem nas barbas de teu pai!

D. CAT. Senhor, um gracejo...

D. ANT. (enfadando-se). Um gracejo injurioso, que eu não consinto, que não quero, que me dói... "Que só poetas podem dizer bem!" E que poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que é esse atrevido, o que vale a sua poesia... Mas, que seja outra e melhor, não a quero para mim, nem para ti. Não te criei para entregar-te às mãos do primeiro que passa, e lhe dá na cabeça haver-te.

D. CAT. (procurando moderá-lo). Meu pai...

D. ANT. Teu pai, e teu senhor!

D. CAT. Meu senhor e pai... juro-vos que... juro-vos que vos quero e muito... Por quem sois, não vos irriteis contra mim!

D. ANT. Jura que me obedecerás.

D. CAT. Não é essa a minha obrigação?

D. ANT. Obrigação é, e a mais grave de todas. Olha-me bem filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.

CENA V

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO

D. ANT. Mas não, não vás sem falar à senhora D. Francisca de Aragão, que aí nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi há tantos anos, por tempo do nosso

sereníssimo Senhor D. Manuel... Velho estou, minha formosa dama...

D. FRA. E que dizia a farsa?

D. ANT A farsa dizia:

É bonita como estrela,

Uma rosinha de abril,

Uma frescura de maio,

Tão manhosa, tão subtil!

Vede, que a farsa adivinhava já a nossa D. Francisca de uma frescura de maio, tão manhosa, tão subtil...

D. FRA. Manhosa, eu?

D. ANT. E subtil. Não vos esqueça a rima, que é de lei (Vai a sair pela porta da direita; aparece CAMÕES).

CENA VI

OS MESMOS, CAMÕES

D. CAT. (à parte). Ele!

D. FRA. (baixo a D. CATARINA). Sossegai!

D. ANT. Vinde cá, senhor poeta das galinhas. Já me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que não vos custaria mais tempo a fazê-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito... E o duque? O duque, ainda não emendou a mão? Há de emendar, que não é nenhum mesquinho.

CAMÕES (alegremente).Pois El-rei deseja o contrário...

D. ANT. Ah! Sua Alteza falou-vos disso?... Contar-mo-eis em tempo.

(A D. CATARINA com intenção.) Minha filha e senhora, não ides ter com a rainha? eu vou falar a El-rei.

(D. CATARINA cortejaos e dirige-se para a esquerda; D. ANTÔNIO sai pela direita).

CENA VII

OS MESMOS, menos D. ANTÔNIO DE LIMA

(D. CATARINA quer sair, D. FRANCISCA DE ARAGÃO detém-na)

D. FRA. Ficai, ficai...

D. CAT. Deixai-me ir!

CAMÕES Fugis de mim?

D. CAT. Fujo... Assim o querem todos.

CAMÕES Todos! todos quem?

(continua...)

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