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#Ensaios#Literatura Brasileira

A Esfinge

Por Euclides da Cunha (1907)

Atravessando em silêncio a baía, o Vulcano, a Lucy ou qualquer outro sócio de catástrofes – caldeiras surdas, fogos abafados, avançando em deslizamentos velozes — abeira-se do litoral. Não o percebem as sentinelas, vigilantes no alto dos parapeitos...

De repente, arrebenta-lhes adiante, nas águas, a explosão de uma cratera. Desencadeia-se o alarma. Correm os soldados surpreendidos. Baqueiam alguns, baleados. A maioria alinha-se nas trincheiras, carabinas estendidas sobre o plano de fogo. Deflagram na treva os fulgores das descargas. Espingardeia-se por cinco minutos, o vácuo... e reinam de novo o silencio e as sombras, enquanto o rebocador, atacante, banhado nos últimos clarões do tiroteio, se afasta como uma salamandra enorme, intangível, engolfando-se na noite.

Ora, o trabalho a iniciar-se ia atrair, sem dúvida, um desses recontros rápidos e ferozes. Era, porém, improrrogável.

Um carpinteiro arriscou a primeira pancada, medrosa, vacilando. Depois outra, mais firme — um estalo dilacerador na mudez absoluta. Sucederam-se outras; e em breve, sem cadência, sacudidos pelos punhos trêmulos, vibrando na psicose convulsiva do medo mal refreado, estrepitavam os martelos sobre as tábuas.

Tirei O relógio. Uma hora da madrugada. Ia acordar o Rio de Janeiro todo com aquele despertador estranho que desandava, de chofre, à sua cabeceira.

Alguém, porém, fê-lo parar. As marteladas chegaram, alarmantes, ao escritório do Lóide, onde aquartelava o comandante da linha, e este veio em pessoa interrompê-las.

O bravo coronel — orgulho de Piauí — chegou dentro do seu dólmã vistoso e do estado maior alarmado Traía no afogo da respiração a caminhada feita e a emoção sagrada dos perigos. Ponderou a inconveniência daquela matinada heróica àquelas horas. Proibiu-a. E voltou marcialmente, seguido do estado maior brilhante num grande estrépito de espadas novas, batendo nas calçadas.

A medida era, afinal, prudente. Evitava-se que os revoltosos viessem, por sua vez, inquirir de tal ruído, com as habituais arrancadas e sacrifícios inúteis de inofensivos operários.

Suspensa a tarefa, estes se amontoaram por perto, abrigados pelo beiral saído de velho armazém acaçapado, mudos, tiritando sobre a calçada resvaladia e úmida.

E o silêncio desceu de novo, deixando distinguir-se, ao longo, o crepitar do tiroteio escasso duma sortida qualquer, insignificante, como tantas outras que se fazem todos os dias, pela tendência destruidora apenas, avultando, somadas, na crônica sombria da Revolta...

Atravessando, como dardos, à noite, os feixes de luz do refletor elétrico do morro da Glória destacavam-se no espaço, divergente e longos, fazendo surgir no giro amplíssimo - de súbito aclarados e logo desaparecendo — além, os navios de guerra numa passividade traidora; mais à frente Niterói, adormecida; a Armação, sinistra e deserta; e todas as angras, todas as angusturas, todas as ilhas, uma por uma, repontando e extinguindo-se, no volver da paisagem móvel e fantástica; distendo, a súbitas, num coruscar repentino de areias claras, a fita de uma praia remota; resvalando, logo depois, devagar, pelos pendores dos cerros; estirando-se, por fim, em distenção máxima, ate Magé, ao fundo da baía. E dali voltando, lentos, perquirindo, na marcha fulgurante, um por um todos os pontos fortificados; demorando-se um instante sobre a ilha das Cobras, e mostrando uma visão de Acrópole, meio derruída, naquela ponta de granito arremessada fora das ondas; deixando-a, e pondo uma nesga de luar errante sobre o convés revolto da Guanabara; deslizando dali para o costado arrombado da Trajano; e passando a outros pontos, banhando-os um a um no fulgor tranqüilo e forte - feito um olhar olímpico da Lei, insistente e fixo, sobre os combatentes...

Admirável quadro. Curvei-me sobre a canhoneira recém-construída.

Contemplei-a e dei largas a fantasia caprichosa...

Imaginei-me, então, obscuríssimo comparsa numa dessas tragédias da antigüidade clássica, de um realismo estupendo, com os seus palcos desmedidos, sem telão e sem coberturas, com os seus bastidores de verdadeiras montanhas em que se despenhavam os heróis de Esquilo, ou o proscênio de um braço de mar, onde uma platéia de cem mil espectadores pudesse contemplar, singrantes, as frotas dos fenícios.

A ilusão é completa.

Vai para quatro meses que não fazemos outra coisa senão representar um drama da nossa história, de desenlace imprevisto e peripécias que dia a dia se complicam, neste raro cenário que nos rodeia.

A civilização, espectadora incorruptível, observa-nos, dentro de camarotes cautelosamente blindados: a França, na Arethuse veloz; a Inglaterra, entre as amuradas da Beagle veleira, cujos passeios diários fora da barra dão tanto que pensar; e a Alemanha, e os Estados Unidos, e o próprio Portugal sobre o convés pequeno da Mindello...

Aplaudem-nos?

(continua...)

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