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#Ensaios#Literatura Brasileira

Contrastes e Confrontos

Por Euclides da Cunha (1907)

Foi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em aquedutos, ora ajustados às vertentes, ora, subterraneamente, varando serranias; ou então — pormenor que é um recuo considerável das origens da hidráulica moderna — lançados de uma a outra serra em vasos comunicantes desmedidos. Por fim, nos lugares onde não encontrou o cerne rijo da terra para erigir os seus monumentos, inventou os aparelhos poligonais ciclópicos: uma arquitetura para desafiar o cataclismo...

Mas não previu o espanhol do século XVI.

A raça forte e pacífica, que dava os primeiros lugares aos inspetores agrícolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas e os canais, e aos arquitetos que lhe alteavam os templos, foi colhida à traição pela brutalidade militar da Espanha.

Fez-se na história a cópia servil de um daqueles terremotos que no Peru subvertem cidades em minutos.

A unidade da raça autóctone, disciplinada e integra, marchando com um método tão seguro que lhe permitiu tão altos cometimentos, contrapôs-se a desordem de uma exploração em larga escala e o dispersivo dos caracteres de imigrantes atraídos de todos os países.

Porque o peruano é, ainda mais do que nós, uma ficção etnográfica.

Em 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria de quase todas as raças — o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado e todos os cambiantes destas cores do bambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo — completada por uma separação absoluta de classes, do cooli, que aluga a liberdade, substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega, explora adoidamente a terra e vai-se embora, ao quíchua, espalhando na tristeza incurável a doença de sua gens que está morrendo... No alto o neto dos conquistadores, o quase hidalgo, em que pese a mestiçagem, o condutício dos caudilhos, o irrequieto industrial das revoluções, o que se diz peruano, guardando, intacta, a velha altivez espanhola, quer a estadeie entre as opulências das haciendas, ou a levante, mais impressionadora, revestido de andrajos, e mendigando intimamente como se fosse um gentil-homem da miséria...

Ora, toda essa gente — à parte as culturas nos pontos em que se desenterram as acéquias dos antigos — de um modo geral se aplica aferradamente, numa agitação ansiosa, aos únicos trabalhos que lhe não implicam as disparidades de um temperamento e as divergências de esforços: saqueia a terra e o passado. Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos, e o guano, e as múmias, e as pedras dos templos.

Desbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias, profanam-se as pirâmides funerárias, e revolvem-se as huacas, que, às vezes, valem pelas melhores minas, bastando notar-se que com um quinto de ouro de uma delas se construiu Trujillo...

Não se define o repulsivo dessas pesquisas lúgubres e dessa indústria macabra, que tem como matéria-prima arcabouços disjungidos e profanados, ou velhos sudários em pedaços.

Nada caracteriza melhor o parasitismo, o apego as tradições, a falta de solidariedade e o desequilíbrio da energia das gentes que abarracaram por aquelas bandas.

O passado é um despojo.

Aproveitam-no na sua forma estreitamente utilitária. E neste apropriar-se a esmo, a sociedade revolucionária e frágil vai dando uma expressão tangível ao contraste que a apequena ante a sociedade morta: vêem-se então mesquinhos pardieiros desequilibradamente erectos sobre embasamentos ciclópicos; ou cidades, e citemos apenas o Huamachuco, construídas com os blocos arrancados dos templos: uma triste projeção horizontal de velhas fachadas, um acaçapado estiramento de grandezas repartidas em casas de tetos deprimidos e paredes espessas, e uma melancólica arquitetura de ruínas...

Ora, esta atividade, que um sem-número de causas físicas e sociais tornaram impulsiva, agitadíssima e estéril, derivando em desfalecimentos e arrancos, rebatese na existência política do Peru. Daí a monotonia irritante dos pronunciamentos, os desastres das guerras infelizes e o tumultuário das perigosas sucessões presidenciais, que ora se fazem, progressivamente, à americana, a revólver, ora com o requinte feroz daquele suplício dos dois usurpadores Gutierres — expostos, oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados depois, do alto daquelas duas Trapeas barrocas para as fogueiras vingadoras acesas na Plaza de Armas...

Confrontados estes contrastes, acredita-se quase que as incursões peruanas, neste momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juruá, se traduzam como uma retirada, uma tendência para abandonar a estreita e alongada região onde uma nacionalidade, cujos antecedentes étnicos prefiguram mais elevados destinos, jaz bloqueada entre o maior dos mares e a maior das cordilheiras, sobre um solo batido pelo desequilíbrio dos agentes físicos e em contacto com um passado que tanto tem influído na sua desfortuna.

(continua...)

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