Por Euclides da Cunha (1907)
De fato, o último aspecto desta estupenda hipertrofia territorial recorda-lhe o ponto de partida. A extremidade peninsular de Liao-Tong — neste momento o mais ruidoso palco do drama russo-japonês é a miniatura da Criméia. Ali ainda se retrata, estereotipado no desmantelamento da terra, o cataclismo geológico que destacou o Japão da Coréia, deixando-lhes de permeio a rumaria esparsa das "Dez mil ilhas", que fervilham entre Fuzan e Nangasaki. A ponte extrema da peninsular Kuang-Tong, a "espada do regente", embebida no mar à feição de gládio desmedido, denteia-se de numerosas enseadas ou reentrâncias nos ásperos costões de micaxisto... Numa delas o acesso se faz por uma passagem estreita, breve angustura de taludes a pique à maneira de brecha de muralha.
E lá dentro, no encerro da baía, as falésias a prumo desatam-se em cortinas unidas, encimadas de baluartes, desenrolam-se ou entrelaçam-se entrincheiramentos, acompanhando os sulcos das ravinas, e os cerros torreados crivam de fortalezas as alturas ...
É Porto Arthur — a Sebastopol ameaçadora do Pacífico.
Ora, esta expansão vitoriosa contrabate, de um lado, os interesses imediatos do Japão transfigurado nos últimos trinta anos, com uma vida intensíssima a desbordar no âmbito de suas ilhas para o cenário maior do continente fronteiro — e de outro aos interesses futuros da Inglaterra na Índia, sobre a qual descerá direta e esmagadoramente o peso morto formidável deste antigo mundo restituído à história.
Daí a luta - a luta às claras do Japão, arrojando na Manchúria todo o seu exército, e a luta surda da Inglaterra, mal disfarçada sob a forma meio diplomática, meio militar, da missão do Tibete, que neste momento chega aos muros de Lassa, a "impenetrável".
Mas neste investir com a capital interdita do budismo, as armas inglesas vão bater precisamente no centro irradiante das inspirações superiores da diplomacia moscovita. De fato, toda ela, a despeito da sua complexidade e das infinitas muralhas em que enleou a metade da Ásia, tem consistido em destacar o prestígio eslavo entre a fidelidade precária dos chineses à dinastia reinante e a aversão nacional à expansão econômica do Ocidente. Teve que harmonizar coisas opostas: captar a confiança da primeira, protegendo-a ou dirigindo-a, e ao mesmo tempo o apoio da grande maioria do povo, em quem o nacionalismo antidinástico é um caso particular de xenofobia, o ódio ao estrangeiro, que o caracteriza.
Ora, o instrumento desta maquinação — a maior e mais vasta de quantas intrigas rememora a história foi o mais alto fator da vida oriental, o clero búdico, a oligarquia teocrática de Lassa, o árbitro pré-excelente de todas as questões asiáticas.
Tudo mais está num plano subordinado; os nove mil quilômetros de rails que prendem Porto Arthur a Petersburgo; os possantes locomóveis que correm hoje pelos plainos da Mongólia, arrastando pesadíssimos trens e resolvendo o problema da rápida viação sem trilhos; as cidades russas emergentes com os seus nomes caracteristicamente russos por toda a Manchúria; as operações em vasta escala do Banco Russo-Chinês, açambarcando todas as finanças do Oriente; e todo o vasto acampamento que perlonga as vias férreas, onde em cada estação se abarraca uma sotnia de cossacos; todas estas formas materiais e imponentes do domínio têm a garantia maior da aliança habilmente estabelecida, desde 1901, entre o papa ortodoxo do Neva e o imperador teocrático de Lassa.
Graças a ela, desenvolveu-se o protetorado russo na Mongólia e a suserania virtual do czar sobre toda a China. E quando a corte mandchu, rudemente molestada pela última intervenção européia, se acolheu sob o amparo da Rússia, desvendouse inteiramente> diante da Europa surpreendida, a aliança singularíssima entreabrindo uma nova fase na história do Oriente.
Delatou-a incidente expressivo. O chefe do budismo, o super-homem tibetano, modificou a cerimônia tradicional com que através dos séculos ele consagra os poderes supremos da Ásia: o chanceler de Lassa, conduzindo os presentes simbólicos do domínio, não se dirigiu mais a Pequim. Dirigiu-se para a Livadia.
Era a sagração do czar — logo depois sancionada pela própria dinastia mandchu com o tratado confidencial de julho de 1902. E o enorme bloc russobúdico, descendo esmagadoramente sobre a Ásia meridional, cerrou todas as passagens à expansão inglesa.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.