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#Ensaios#Literatura Brasileira

Uma Comédia Histórica

Por Euclides da Cunha (1907)

A aventura noturna de D. João IV e D. Francisco Manoel não fora deslembrada. E embora D. João V, mais precavido e prático, preferisse, ao arriscado destes encontros, os recatados cômodos do harém seráfico de Mafra, tinha no irmão, o infante D. Francisco, e no Duque de Cadaval, uns dignos continuadores das mesmas tropelias romanescas.

Felizmente entre estes nobres gandaieiros, um espadachim atrevido, um mestiço à volta dos vinte anos, um tal Sebastião José de Carvalho, aparecia às vezes, compartindo as desordens que ele mais tarde extinguiria, porque lhes aquilatara, experimentalmente, os inconvenientes e as torpezas.

Mas havia também um homem, o mesmo homem que Oliveira Lima, no Secretário d'El-Rei nos apresenta sob uma de suas mais interessantes modalidades — Alexandre de Gusmão.

Era brasileiro; mas nesta circunstância fortuita não está o interesse que ele nos desperta. O que dele nos impressiona é o contraste de uma individualidade original e forte e a decrepitude do meio em que ela agiu. Aquele escrivão da puridade preso pelo contato diário à corte e pelo cargo obrigado a submeter-se a todas as exigências da época e a tacanhear o talento nos escaninhos e nas estreitezas dos relatórios enfadonhos - reponta-nos nas suas admiráveis cartas a D. Luiz da Cunha, com a atitude inesperada de um fiscal incorruptível, irônico e formidável. Nele, sim, enfaixavam-se todos os estímulos céticos, agressivos e assombrosamente demolidores que se esboçavam na França.

A sociedade pecaminosa de D. João V, onde o monstruoso substituía a grandeza, com as suas antíteses clamorosas, com os seus lausperenes e as suas devassidões, com o trágico da inquisição e a glorificação de todos os ridículos, com o idiota cardeal Mota que acabou com as trovoadas riscando-as da folhinha do ano, com o seu místico tenente Santo Antonio, jogralescamente promovido por atos de bravura, e com o cínico Encerrabodes tolerado em todas as salas — o Portugal paraguaio dos Jesuítas com os seus monges, os seus padres, os seus rufiões, a sua patriarcal, a sua escolástica garbosamente fútil e a sua literatura desfalecida, teve no seu primeiro ministro o seu mais implacável juiz.

Sob este aspecto, a figura ainda não bem estudada de Alexandre de Gusmão é impressionadora.

Foi um voltairiano antes de Voltaire: a mesma espiritualidade expansiva, em que pese uma cultura menor, a mesma mobilidade, os mesmos arrebatamentos, o mesmo sarcasmo diabólico e a mesma emancipação intelectual, revolucionária e brilhante.

Não o considerou sob essa feição complexa Oliveira Lima, que dificílimo fora constrigi-lo nos três atos de uma comédia.

Fixou-o, porém, por uma de suas faces encantadoras: a adorável complecência de uma alma sobranceira às ruínas de um amor não correspondido e verdadeiramente heróica no amparar o rival feliz que o compartia.

O assunto, como se vê, é profundamente dramático. A índole do protagonista, entretanto, transmudou-o numa comédia.

O grande homem pareceu-nos talvez apequenado no tortuoso de uma intriga vulgar, mas traça, cortando uma situação trivialíssima, a linha impressionadora de uma individualidade nova no meio de uma sociedade envelhecida. Realmente, o que hoje para nós é uma vulgaridade - este triste humorismo com que na pressão atual da vida moderna disfarçamos cautelosamente as maiores desventuras e este "levar as coisas a rir mesmo quando elas são de fazer-nos chorar" — eram uma novidade na época brutal em que a fraqueza irritável das gentes supersticiosas e incultas predispunha ao impulsivo e ao desafogo máximo das paixões.

Assim considerado, o Secretário d'El-Rei é um livro belíssimo.

Que outros, mais vezados à técnica teatral, lhe apontem todos os defeitos.

Nós, não. Satisfez-nos o aprumo impecável, a fidalguia espirituosa com que Alexandre de Gusmão, sem destoar da nota superior de seu caráter, destramou o intrincado de um incidente passional que o colhera de improviso no meio dos seus relatórios e dos seus livros — sem criar uma situação de fraqueza às suas magníficas rebeldias do pensar e do sentir.

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