Por Euclides da Cunha (1907)
Para o Dr. Vosberg-Rekow, todo o corpo político-industrial alemão depende do estrangeiro por maneira tal que a súbita parada na remessa das matérias-primas essenciais lhe acarretará desorganização completa — verdadeira ruína que só pode prevenir com uma poderosa marinha apta, do mesmo passo, a fiscalizar os caminhos do mar e a facilitar a conquista de colônias produtivas.
O professor Schmoeller é até alarmante: se a Alemanha se não robustecer bastante no mares, ao ponto de garantir, perenemente, a importação do trigo de que carece, e, em dadas circunstâncias, exercer uma pressão eficaz sobre os países que lho vendem — a sua própria existência material está em perigo.
Sobre todos, Bassenge, abertamente terrorista, agita três espectros do futuro: a Rússia açambarcando quase toda a Ásia; a América do Norte, com a sua ilimitada energia econômica, derrotando a Europa dentro dos mercados europeus; e a Inglaterra, monopolizando o comércio de um quinto da superfície terrestre. Apelam para a estatística, a serva desleal da sociologia; calculam; perdem-se nas tortuosidades dessa aritmética imaginária, e Schleiden descobre que em 1980 haverá 1.280 milhões de eslavos e anglo-saxônios contra 180 milhões de alemães, o que eqüivale à morte do pan-germanismo pelo simples peso material daquela massa humana.
Sering não vai tão longe. A seu parecer dentro de vinte anos a indústria russa atenderá por si só ao mercado nacional, o que sucederá também com a norteamericana, — e se a Inglaterra realizar a planejada Imperial Customs Union, o industrialismo alemão ruirá de todo, restando às populações o abandono da pátria.
Diante de perspectivas tão sombrias, compreendem-se os lances arrojados da política teutônica, que assumem hoje os mais díspares aspectos — desde a anglofobia exposta durante a guerra do Transvaal, disfarçando o intento de captar um consumidor na África do Sul, a esta fantástica estrada de ferro de Bagdá, visando transformar Ormuz num Suez prussiano, de onde se facilite uma passagem para o oceano Índico.
Mas, sobre todos estes expedientes, a medida que faz delirar a quantos filósofos, sábios, meio-sábios e sociólogos o fetichismo nacional de Kreisreidee agita entre o reportado von Bulow e o irrequietíssimo imperador, o ideal que estonteia os Wagner, Schmoeller, Hartmann, Vosberg, Schumacher, Voigt, Sering e toda uma legião de foliculários assanhados — é a posse do Brasil do Sul.
Não lhes resta o vacilar mais breve: caímos na órbita da Alemanha, como o Egito na da Inglaterra, e na da Rússia a Manchúria.
O Dr. Leyser — são em geral doutores estes pioneres abnegados — não o disfarça no seu belo livro:
"Hoje, nestas províncias (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) cerca de 30% dos habitantes são germanos ou seus descendentes: e, por certo, nos pertence o futuro desta parte do mundo. De feito, ali, no Brasil meridional, há paragens ricas e salubres, onde os alemães podem conservar a nacionalidade, e um glorioso futuro se antolha a tudo que se compreende na palavra — germanismus".
Como este, idéiam-se outros projetos imaginários, que fora inútil reproduzir, tão conhecidos são eles. E intermitentemente, um naturalista de nome arrevezado, H. Meyer, von den Stein, ou qualquer outro, ou esse Dr. Valentim, espécie de repórter enciclopédico de um jornal berlinês, aparece entre nós; traça, em alemão, o melhor das nossas inéditas paisagens, e atira para além-mar, dentro de um livro curioso, ou nas entrelinhas das correspondências administrativas, ou nos cifrões dos relatórios maciços, novos elementos ao fervor expansionista em que, por igual, ali se abrasam, unidos pelo mesmo anelo, militares arrogantes, políticos solertes e austeros pensadores...
Ora, tudo isto é monstruosamente verdadeiro; tudo isto forma um dos prediletos assuntos de grande número de revistas, e tudo isto é um exaustivo, um absolutamente estéril bracejar entre miragens.
Que não nos assuste este imperialismo platônico...
Um simples, o mais apagado lance de vista sobre o atual momento histórico, revela que a Alemanha não pode balançar-se, tão cedo, a empresas de tal porte. A sua política expansiva gira num círculo vicioso original; precisa de colônias e mercados estranhos para viver e vencer a concorrência de outros povos; precisa dominar, sob todas as formas, esta concorrência, para conseguir aquelas colônias e mercados.
Dificilmente se forrará aos entraves desta situação penosa.
O seu duelo econômico com a América do Norte e com a Inglaterra é dos que não terminam nunca; a sua incompatibilidade com a França é irremediável; e a aliança com a Itália implica com a solidariedade latina renascente. Guilherme II, com o seu desastrado ansiar pelas simpatias de todo o mundo, só conseguiu um amigo, um deplorável amigo, o seu grande amigo Habdul-Hamid, o sultão vermelho, encouchado, traiçoeiramente, nos Dardanellos, na encruzilhada suspeita de dois mundos...
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.