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#Ensaios#Literatura Brasileira

O Marechal de Ferro

Por Euclides da Cunha (1907)

Porque a vitória foi uma surpresa; e desfechara-a precisamente o homem singular que equilibrara até o último minuto a energia governamental e a onda revolucionária – até transmudar a própria infidelidade no fiel único da situação, de súbito inclinado para a última.

Este golpe teatral, deu-o com a impassibilidade costumeira; mas foi empolgante. Minutos depois, quando diante do ministério vencido o marechal Deodoro alteava a palavra imperativa da revolução, não era sobre ele que convergiam os olhares, nem sobre Benjamin Constant, nem sobre os vencidos-mas sobre alguém que a um lado deselegantemente revestido de uma sobrecasaca militar folgada, cingida de um talim frouxo de onde pendia tristemente urna espada, olhava para tudo aquilo com uma serenidade imperturbável. E quando, algum tempo depois, os triunfadores, ansiando pelo aplauso de uma platéia que não assistira ao drama, saíram pelas ruas principais do Rio — quem quer que se retardasse no quartel-general veria sair de um dos repartimentos, no ângulo esquerdo do velho casarão, o mesmo homem, vestido à paisana, passo tranqüilo e tardo, apertando entre o médio e índex um charuto consumido a meio, e seguindo isolado para outros rumos, impassível, indiferente, esquivo...

E foi assim — esquivo, indiferente e impassível — que ele penetrou na História.

Vimo-lo depois, de perto, na conspiração contra o golpe de estado de 3 de novembro.

A sua casa no Rio Comprido era o centro principal da resistência. Ia-se para lá de dia, em plena luz: nenhum resguardo, nenhuma dessas cautelas, e ânsias, ou sobressaltos, com os quais numa conspiração se romanceiam os perigos. Os conspiradores iam, prosaicamente, de bonde; saltavam num portão, à direita; galgavam uma escada lateral, de pedra; e viam-se a breve trecho num salão modesto, com a mobília exclusiva de um sofá, algumas cadeiras e dois aparadores vazios. Lá dentro, janelas largamente abertas, como se tratasse da reunião mais lícita, rabeava ferozmente a rebeldia: gizavam-se planos de combate; balanceavamse elementos, ou recursos; pesavam-se incidentes mínimos; trocavam-se alvitres, denunciavam-se trânsfugas, enumeravam-se adeptos, e nas palestras esparsas em grupos febricitantes vibrava longamente este entusiasmo despedaçado de temores que trabalha as almas revolucionárias.

De repente, uma ducha enregelada: aparecia o marechal Floriano com o seu aspecto característico de eterno convalescente e o seu olhar perdido caindo sobre todos sem se fitar em ninguém. Sentava-se, vagarosamente; e no silêncio, que se formava de súbito, lançava uma longa e pormenorizada resenha dos achaques que o vitimavam. Era desalentador.

Passado, porém, aquele sobressalto invertido, aquela quietude alarmante e aquela calma impertinente, mais cruciante do que a ansiedade anterior, renovava-se a agitação — e no gizarem-se planos, no balancearem-se recursos, no pesarem-se todos os incidentes, no contraposto, no revolto, no desordenado, nos diálogos esparsos; ou cruzando-se, ou afinal fundidos na palavra única de alguém que atirava, de golpe, entre os grupos, uma notícia emocionante, naquele tumulto, o homem que era a nossa esperança mais alta lançava avaramente um monossílabo, um não apagado, um sim imperceptível no balanço fugitivo da cabeça, ou abria a encruzilhada de um talvez...

Saía-se jurando que estava na sala um traidor, impossibilitando-lhe o livre curso das idéias. Porque, isoladamente, a cada um dos que lá iam, ele se manifestava com a sua lucidez incomparável.

Aceitava-se um a um; repelia-nos unidos. E a pouco e pouco naquele retrairse cauteloso, naquele escorregar precavido sobre todas as questões que se lhe propunham na reunião revolucionária, tão diferente do firme, do definido e do claro de pensar, que, parceladamente, manifestava a cada um dos que a constituíam, ele foi infiltrando na conspiração a sua índole retrátil e precatada. Por fim — confiava-se no melhor companheiro da véspera... desconfiando.

E natural que a trama sediciosa se alastrasse durante vinte dias, inteiramente às claras e imperceptível; e que ao irromper a 23 de novembro o movimento da Armada — simples remate teatral da mais artística das conspirações — o marechal Floriano, imutável na sua placabilidade temerosa, seguisse triunfal e tranqüilo para tomar o governo, "obedecendo" a um chamado do Itamarati, espantosamente disciplinado no fastígio da rebeldia que alevantara — e indo depor o marechal Deodoro vencido, com um abraço, um longo e carinhoso abraço, fraternal e calmo.



(continua...)

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