Por Machado de Assis (1877)
Um dia, passando Silvestre pela Academia das Belas-Artes, viu-a aberta; entrou, pediu para ver alguns quadros. A simplicidade do pedido desviou a idéia de qualquer objeção. Demais, a comoção do pequeno era visível; era por força comoção de artista. Quando ele de lá saiu, duas horas depois, tinha o olhar alucinado, o pulso febril, o passo trêmulo. A vista das salas e dos alunos fascinava-o, revolvia-o todo. Vira com os olhos os quadros da Academia; com o espírito viu-o uma infinidade de obras-primas, e sobre todas elas uma que ele trazia em si, inédita, virgem, à espera de ver o sol, de a saudarem os séculos.
Essa obra-prima não era a caricatura do fiel do cartório, menos ainda os traslados do escrivão. Silvestre vagou longo tempo pelas ruas da cidade. Quando cansou, refletiu no que lhe cumpria fazer para substituir a pena pelo pincel; e concluiu que era pedi-lo ao pai. Assim disposto, dirigiu-se para casa onde entrou alegre como nunca o vira a família. Entrou; foi ter com o livro misterioso, abriu-o e contemplou com a alma toda. Era uma história da pintura, entremeada de gravuras representando painéis célebres. As mulheres nuas que tanto irritaram o procurador eram umas Vênus e Bacantes, ali inseridas entre as Virgens de Correggio e Rafael. Silvestre fartou-se de contemplar as obras e releu a história de alguns pintores. A ambição não lhe falava na alma; ele não perguntava se o futuro lhe daria as palmas do Dominiquino e Rembrandt. Não; o que lhe pulava dentro era um painel que ele devia fazer, uma idéia, um sentimento, alguma coisa sublime que tinha necessidade de traduzir na tela e legar à imortalidade.
Nesse mesmo dia, Silvestre pediu à mãe que o tirassem do cartório e o mandassem para a Academia. A mãe sorriu tristemente do pedido do filho; mas descarregou a consciência de mãe transmitindo-o a seu marido. O procurador vivera até ali na ignorância do que podia valer a pintura, salvo para fazer alguns retratos, e isto mesmo nem era já aplicação sensata depois do daguerreótipo, então em plena posse de ambos os mundos. Quando a mulher lhe falou no desejo do pequeno, limitou-se a erguer os ombros; mas indo ele fazer lhe pessoalmente o pedido, José Vargas irritou-se deveras.
— Tu estás doido? disse ele agitando as narinas. Pois hás de ganhar a vida a borrar pano!
Silvestre tentou fazer entender ao pai que não era precisamente o que ele queria, mas a potência intelectual do procurador não ia até compreender a Transfiguração. O pai cortou a palavra ao filho e devolveu-o ao cartório.
Não havia mais que obedecer, Silvestre obedeceu.
Passados os primeiros dias, o pequeno levantou o espírito do abatimento em que o lançou a recusa paterna. Achava meio de sair a certas horas, em certos dias, e voltava ao edifício das Belas-Artes. Ali travou conhecimento com um dos alunos, tornou-se íntimo; alcançou confidências; fez-lhe algumas, e quando a amizade se achou cimentada — o que custa pouco entre rapazes —, obteve em casa do aluno as primeiras lições de desenho. Mostrou-lhe então alguns ensaios que fizera a ocultas; o aluno admirou-se da espontaneidade do talento e não acreditou que ele não tivesse tido mestre.
— Não tive nenhum, respondeu Silvestre com simplicidade; copiei algumas gravuras que tenho num livro.
Alcançou algumas lições: mas o mestre, vendo um dia que o discípulo lhe era superior, sentiu-se humilhado e suspendeu o obséquio. Silvestre colheu desde logo os primeiros espinhos. Não desanimou, nem era caso disso. O que aprendera era bastante para desenvolver-lhe o talento; atirou-se à arte com o melhor de seu coração. Imberbe como Rafael, não se acreditava menos votado à glória ainda que para ele a glória não eram os aplausos dos homens, mas só o fato de produzir alguma coisa. Quando lhe pareceu que ia bem no desenho, experimentou o emprego das tintas; arranjou uma tela, armou um cavalete, e trabalhou consigo. Ao cabo de muita tentativa, convenceu-se de que lhe faltava ainda muita coisa. Voltou à Academia, a pretexto de visitar o antigo mestre, mas com o único fim de observar como ele e os outros trabalhavam. Um professor do estabelecimento reparando na atenção com que ele assistia às lições e descobrindo-lhe no olhar alguma coisa superior, travou amizade com ele e deu-lhe na sua oficina lições particulares e práticas, que o rapaz aprendia com rapidez incrível. O desinteresse e o desvelo do professor falaram na alma de Silvestre, e deram-lhe, com as noções da arte que ele adorava, uma alta idéia de generosidade dos homens. O aluno era escravo do mestre; o mestre era pai do aluno.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.