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#Comédias#Literatura Brasileira

Os deuses de casaca

Por Machado de Assis (1866)

E deu, para fazer uma dualidade,

A destra à fantasia, a sestra à realidade.

Com esta viajou pelo éter transparente

Para infundir-lhe um tom mais nobre... e mais

[decente.

Com aquela, vencendo o invencível pudor,

Foi passear à noite à rua do Ouvidor.

Mal que as consorciou com o oposto elemento,

Transformou-se uma e outra. Era o melhor momento

Para levar ao cabo a obra desejada.

Aqui pede perdão a musa envergonhada:

O poeta, apesar de cingir-se à poesia,

Não fez entrar na peça as damas. Que porfia!

Que luta sustentou em prol do sexo belo!

Que alma na discussão! que valor! que desvelo!

Mas... era minoria. O contrário passou.

Damas, sem vosso amparo a obra se acabou!

Vai começar a peça. É fantástica: um ato,

Sem cordas de surpresa ou vistas de aparato.

Verão do velho Olimpo o pessoal divino

Trajar a prosa chã, falar o alexandrino,

E, de princípio a fim, atar e desatar

Uma intriga pagã. Calo-me. Vão entrar

Da mundana comédia os divinos atores.

Guardem a profusão de palmas e de flores.

Vou a um lado observar quem melhor se destaca.

A peça tem por nome - Os deuses de casaca.

Cena I

MERCÚRIO (assentado), JÚPITER (entrando)

JÚPITER

(entra, pára e presta ouvido)

Cuidei ouvir agora a flauta do deus Pá.

MERCÚRIO

(levantando-se)

Flauta! é um violão.

JÚPITER

(indo a ele) Mercúrio, esta manhã

Tens correio.

MERCÚRIO

Ainda bem! Eu já tinha receio

De que perdesse até as funções de correio. Quero ao menos servir aos deuses, meus iguais. Obrigado, meu pai! - Tu és a flor dos pais, Honra da divindade e nosso último guia!

JÚPITER

(senta-se)

Faz um calor! - Dá cá um copo de ambrosia

Ou néctar.

MERCÚRIO

(rindo)

Ambrosia ou néctar!

JÚPITER

É verdade!

São as recordações da nossa divindade,

Tempo que já não volta.

MERCÚRIO

Há de voltar!

JÚPITER

(suspirando)

Talvez.

MERCÚRIO

(oferecendo vinho)

Um cálix de Alicante? Um cálix de Xerez?

(Júpiter faz um gesto de indiferença;

Mercúrio deita vinho; Júpiter bebe)

JÚPITER

Que tisana!

MERCÚRIO

(deitando para si)

Há quem chame estes vinhos profanos

Fortuna dos mortais, delícia dos humanos.

(bebe e faz uma careta)

Trava como água estígia!

JÚPITER

Oh! a cabra Amaltéia.

Dava leite melhor que este vinho.

MERCÚRIO

Que idéia!

Devia ser assim para aleitar-te, pai!

(depõe a garrafa e os cálices)

JÚPITER

As cartas aqui estão, Mercúrio. Toma, vai

Em procura de Apolo, e Proteu e Vulcano

E todos. O conselho é pleno e soberano.

É mister discutir, resolver e assentar

Nos meios de vencer, nos meios de escalar

O Olimpo...

(Sai Mercúrio.)

Cena II

JÚPITER

(só, continuando a refletir)

... Tais outrora Encélado e Tifeu

Buscaram contra mim escalá-lo. Correu

o tempo, e eu passei de invadido a invasor!

Lei das compensações! Então, era eu senhor;

Tinha o poder nas mãos, e o universo a meus pés.

Hoje, como um mortal, de revés em revés,

Busco por conquistar o posto soberano.

Bem me dizias, Momo, o coração humano

Devia ter aberta uma porta, por onde

Lêssemos, como em livro, o que lá dentro esconde.

Demais, dando juízo ao homem, esqueci-me

De completar a obra e fazê-la sublime.

Que vale esse juízo? Inquieto e vacilante,

Como perdida nau sobre um mar inconstante,

O homem sem razão cede nos movimentos

A todas as paixões, como a todos os ventos.

É o escravo da moda e o brinco do capricho.

Presunçoso senhor dos bichos, este bicho

Nem ao menos imita os bichos seus escravos.

Sempre do mesmo modo, ó abelha, os teus favos

Destilas. Sempre o mesmo, ó castor exemplar,

Sabes a casa erguer junto às ribas do mar.

Ainda hoje, empregando as mesmas leis antigas,

Viveis no vosso chão, ó próvidas formigas.

Andorinhas do céu, tendes ainda a missão

De serdes, findo o inverno, as núncias do verão.

Só tu, homem incerto e altivo, não procuras

Da vasta criação estas lições tão puras...

Corres hoje a Paris, como a Atenas outrora;

A sombria Cartago é a Londres de agora.

Ah! pudesses tornar ao teu estado antigo!

Cena III

(continua...)

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