Por Euclides da Cunha (1902)
Ia-se descendo sempre, até à sanga escavada, embaixo, correndo, em direção perpendicular à que se levava, para o Vaza-Barris ao longe, para onde canalizavam, nas quadras chuvosas, as águas das vertentes interopostas. Ali terminava, batendo contra o topo da colina, onde estava a comissão de engenharia, a parte do arraial expugnada a 18 de julho. Podia atingir-se diretamente o acampamento seguindo em frente, transpondo o valo, subindo e atravessando, à meia encosta, a bateria de Krupps emparcada ao fundo do quartel-general da 1.ª a coluna; ou, num desvio longo, volvendo à direita, acompanhando o valo, perlongando a linha primitiva do assédio, descendo para o sul. A travessia era sem riscos. As casas — num desordenado arruamento às bordas daquele sulco de erosão, acompanhando-lhe o declive, caindo-lhe pelos ressaltos, envesgando-lhe pelas curvas vivas — tinham, na maioria, sido desmanchadas, salvante poucas, as melhores, onde se improvisavam salas de ordem das brigadas, quartéis e ranchos da oficialidade. Uma delas era digna de nota. Fora uma tenda de ferreiro. Mostravam-no ainda alguns gastos marrões, tenazes partidas e derruída forja fixa, de adobes. E aquela ferraria pobre do sertão tinha uma bigorna luxuosa, do mais fino aço, que se fundira em Essen: um dos canhões tomados à expedição Moreira César.
Continuando a marcha topava-se a "linha negra", nome que primitivos sucessos justificavam, mas agora inexplicável para quem vinha das sombrias trincheiras deixadas ao norte.
Seguia-se acompanhando-a pelo fundo de um fosso, até se abrir a meio caminho, à direita, um claro amplo — a praça das igrejas, deserta, achanada, varrida, fazendo avultar maior, mais dominador, mais brutal, mais sinistro, com os seus paredões incombentes, fendidos de alto a baixo, com a sua fachada estupenda esboroando em monólitos, com as suas torres roídas, e o adro entupido de blocos encaliçados, e a nave, lá dentro, vazia, escura, misteriosa — o templo monstruoso dos jagunços.
Dados mais alguns passos fronteava-se a igreja velha, inteiramente queimada, reduzida às quatro paredes exteriores.
Tinham-se nesse momento, à esquerda, o mais miserando dos campos santos, centenares de cruzes — dois paus roliços amarrados com cipós — fincados sobre sepulturas rasas.
Transpunha-se depois o Vaza-Barris; enfiava-se pelo sulco profundo do rio da Providência, percorrendo, em torcicolos, as fileiras dizimadas do 5.° de Polícia, reduzido ao terço do primitivo quadro — e chegava-se, no tombador da Favela, a uma clareira em declive. No alto o baluarte Sete de Setembro sobressaía em balcão, dominante.
Percorria-se rapidamente aquele intervalo perigoso, alcançando-o.
Contemplava-se o arraial embaixo. Modificara-se afinal, o aspecto sombreado de largas manchas escurentas, de incêndios; erriçado de madeiramentos varando pelos rombos dos tetos; tumultuando em montões de argila — num esmagamento completo, arruinado, queimado, devastado...
Apenas estreita fímbria da face norte da praça e o núcleo de casebres junto à latada e à retaguarda da igreja se figuravam intactos. Mas eram em número diminuto, quatrocentos talvez, comprimidos em área reduzida. E os que neles se abrigavam certo não suportariam por uma hora um assalto de 6 mil homens.
Valia a pena tentá-lo.
CAPÍTULO V
O ASSALTO
Foi o que fez o comando-em-chefe contravindo ao propósito de aguardar a rendição sem dispêndio inútil de vidas, pelo enfraquecimento contínuo dos rebeldes.
Reunidos a 30 de setembro os principais chefes militares, concertaram nos dispositivos do recontro para o dia imediato. E, de acordo com os lineamentos do plano adotado, naquele mesmo dia à noite mobilizaram-se as unidades do combate, ocupando, assim, de véspera, as posições para a investida .
O assalto seria iniciado por duas brigadas, a 3.ª e 6.ª, dos coronéis Dantas Barreto e João César Sampaio, a primeira endurada por três meses de contínuos recontros e a última, recém-vinda, de combatentes que ansiavam a medir-se com os jagunços. Aquela deixou, então, a sua antiga posição na linha negra, sendo substituída por três batalhões, 9.°, 22.° e 34.°, e, contramarchando para a direita, seguiu rumo à fazenda Velha, de onde juntamente com a outra, formada dos 29.°, 39.° e 4.° Batalhões, se moveu até estacionar à retaguarda e flancos da igreja nova, objetivo central do acometimento.
Completariam este movimento primordial outros, secundários e supletivos: no momento da carga, o 26.° de Linha, o 5.° da Bahia e ala direita do Batalhão de S. Paulo, tomariam rapidamente posições junto à barranca esquerda do Vaza-Barris, à ourela da praça, onde se conservariam até nova ordem. À sua retaguarda se estenderiam em apoio os dois corpos do Pará, prontos a substituírem-nos, ou a reforçarem-nos, segundo as eventualidades do combate. De sorte que este, iniciado à retaguarda e aos flancos da igreja, iria a pouco e pouco, deslocando-se para a linha de baionetas que se cosia à barranca lateral do rio, na face sul da praça.
Era, como se vê, um arrochar vigoroso — em que colaborariam os demais corpos guarnecendo as posições recém-conquistadas e o acampamento. Interviriam na ação à medida das circunstâncias, ou quando tombassem diante das trincheiras e das barrancas as chusmas de inimigos repulsados.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.