Por Euclides da Cunha (1902)
Era preciso valor para atravessar aquela espécie de túnel, em cuja boca, ao longe, mal se divisava um reflexo pálido do dia. Porque, a dois passos, ladeando-o, paralelamente, se estendia o entrincheiramento invisível do inimigo, interpostas as paredes fronteiras, enfrestadas. De sorte que o mínimo descuido, o mais rápido olhar por cima daqueles parapeitos de ciscalhos, era duramente pago. É que de parte a parte estavam as mesmas astúcias, avivadas dos mesmos ódios. Naquele sombrio finalizar da luta os antagonistas temiam-se por igual. Evitavam por igual o recontro franco. Negaceavam, estadeando as mesmas ardilezas e a mesma proditória quietitude. Imóveis largo tempo, um em frente ao outro, abrigados na mesma sombra, parecendo refletir a adinamia do mesmo esgotamento — espiavam-se, solertes, traiçoeiros, tocaiando-se. E não podiam encontrar melhor cenário para ostentarem ambos, soldados e jagunços, a forma mais repugnante do heroísmo do que aquele esterquilínio de cadáveres e trapos, imersos na obscuridade de uma furna.
Seguia-se por ali envolto de um silêncio lúgubre. Percebiam-se os soldados esfrangalhados, imundos, sem bonés, sem fardas, cobertos de chapéus de couro ou de palha, calçando alpercatas velhas, vestidos com o mesmo uniforme do adversário. E acreditava-se que, com alguma presença de espírito, o sertanejo pudesse insinuar-se pelos rombos do tapume extenso, e aparecer entre eles, e achegar-se com a espingarda ao parapeito, e ali se quedar forrando-se às torturas do cerco, sem que o conhecessem — o que ademais era facilitado pela mistura dos diversos batalhões. Nem o atraiçoaria palmar ignorância dos deveres ou exigências da vida militar, porque esta se extinguira, por completo. Não havia revistas, formaturas, nem toques, nem vozes de comando. Distribuídos os cartuchos, cada um se encostava ao espaldão de cacaréus pronto ao que desse e viesse.
Distribuídas as rações diárias, fartas agora, cada um as preparava quando se lhe antojava ensejo. Aqui, ali, à retaguarda da linha ou dentro dos cubículos estreitos, sobre trempes de adobes ou pedras, chiavam as chaleiras aquentando água para o café; ferviam panelas; destacavam-se grandes quartos de boi, pendurados aos caibros, avermelhando no escuro, sobre braseiros, assando. Em torno, acocorados, carabinas sobraçadas, viam-se, em grupo, os combatentes que aproveitavam ligeira trégua para almoçar ou jantar. Dali corriam, não raro, em tumulto, jogando fora os canecos de jacuba ou nacos de churrasco precipitando-se para a estacada quando, de súbito, estalava um tiro adiante e zuniam logo as balas esfuziantes, varando os tetos, estilhaçando ripas e traves, esbotenando paredes, emborcando caldeirões — espalhando soldados como um pé de vento sobre palhas. No parapeito, adiante, replicavam de pronto os que já lá estavam, atirando a esmo contra o tabique que defrontavam e donde partira a agressão. Imitavam-nos os companheiros laterais. Logo depois vibrava um abalo nervoso, único, estendendo-se daquele ponto aos dois extremos, com uma trepidação vibrátil de descargas; e travava-se o combate, de improviso, furiosamente, desordenadamente, entre adversários que se não viam...
Baqueavam algumas praças, mortas ou feridas. Conquistavam-se dois ou três casebres mais — empurrando-se logo por diante toda a cangalhada de móveis, encurvando-se a tranqueira num ângulo saliente em talhante avançado. Volviam, prestes, os lutadores que mais se tinham avantajado, às posições primitivas. E o silêncio descia de novo, reinando outra vez o mesmo silêncio formidável: soldados mudos e imóveis, acaroados com a borda da tapada sinistra, espectantes, na tocaia; ou, ao fundo, em roda dos brasidos, reatando as merendas ligeiras, que tinham, às vezes, uns trágicos convivas — os moradores assassinados, estirados pelos recantos...
Deixava-se, por fim, este segmento sinistro do bloqueio, que trancava quase todo o quadrante do norte. Prosseguia-se, a céu aberto agora, em pleno dia, atravessando quintalejos pobres de cercas caídas e canteiros rasos, sem mais uma flor, e atravancados da mesma circalhagem indefinível, em montes. Sobre estes, corpos de sacrificados ainda: pernas surdindo inteiriçadas; braços repontando desnudos, num retesamento de angústia; mãos espalmadas e rígidas, mãos contorcidas em crispaduras de garras, apodrecendo, sinistras, em gestos tremendos de ameaça ou apelos excruciantes...
Deparavam-se novos viventes: gozos magríssimos, famélicos lebréus, pelados, esvurmando lepra, farejando e respirando aqueles monturos, numa ânsia de chacais, devorando talvez os próprios donos. Fugiam rápidos. Alguns cães de fila, porém, grandes molossos ossudos e ferozes, afastavam-se devagar, em rosnaduras ameaçadoras, adivinhando no visitante o inimigo, o intruso irritante e mau.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.