Por Euclides da Cunha (1902)
Escavavam, buscando a água que lhes faltava, cacimbas profundas. As mulheres, e as crianças, e os velhos, e os enfermos, colaboravam nestes trabalhos brutos. Mal reprofundavam, porém, além de dois metros os estratos duríssimos, de modo a atingirem as camadas sobre que repousavam tênues lençóis, filtrados pelos últimos estagnados do rio. Alcançavam-nos, às vezes; para vê-los, uma hora depois extintos, sugados na avidez de esponja da atmosfera exsicada. E começou logo a torturá-los a sede, avivada pelas comoções e pela canícula queimosa. O combate fez-se-lhes, então, um divertimento lúgubre, uma atenuante a maiores misérias. Atiravam a esmo, sem o antigo rigor da pontaria, para toda a banda, num dispêndio de munições capaz de esgotar o arsenal mais rico. Os que se encurralavam na igreja nova continuavam varejando os altos, enquanto os demais tolhiam de frente, a dois passos, os batalhões entranhados no casario. Aí se realizavam episódios brutais. A apertura do campo e o estreito das bitesgas impropriando o movimento às seções mais diminutas davam à luta o traço exclusivo de uma bravura feroz. Alguns oficiais, ao avançarem, desapertavam os talins e jogavam a um lado a espada. Batiam-se à faca.
Mas a empresa tornara-se, ao cabo, dificílima. A constrição do sítio condensara nas casas os que as defendiam e estes, enchendo-as, opunham resistência crescente. Quando cediam num ou noutro ponto, os vencedores tinham, ainda, inopinadas surpresas. A traça dos sertanejos colhia-os mesmo naquele transe doloroso.
TRINCHEIRA DE CADÁVERES
Foi o que sucedeu ao ser conquistado um casebre, depois de tenazmente defendido. Os soldados invadiram-no atumultuadamente. E depararam um monte de cadáveres; seis ou oito, caídos uns sobre outros, abarreirando a entrada. Não se impressionaram com o quadro. Enveredaram pelos cômodos escuros. Mas receberam em cheio, pelas costas, partindo daquela pilha de trapos sanguinolentos, um tiro. Voltando-se, pasmos, detonou-lhes outro, à queima-roupa, de frente.
Sopitando o espanto, comprimidos na saleta estreita, viram então saltar e fugir o lutador fantástico, que adotara o estratagema profanador, batendo-se por trás de uma trincheira de mortos...
EM TORNO DAS CACIMBAS
O lento avançar do assedio estacou, então, novamente. Imobilizava-o pela última vez o vencido. Ademais a situação não requeria maiores esforços. A vitória viria por si mesma. Bastava que se conservassem as posições. Fechadas todas as saídas e francamente batidas as cacimbas marginais do rio, o perdimento do arraial era inevitável, em dois dias no máximo — mesmo admitida a presunção de poderem os assediados, por tanto tempo e naqueles dias ardentes, suportar a sede que os flagelava.
Mas a resistência duraria uma semana ainda. Porque aquele círculo maciço de batalhões começou de ser partido, intermitentemente, pelos sertanejos, à noite.
Na de 26 houvera quatro ataques violentos; na de 27, dezoito; nas dos dias subseqüentes, um único, porque já não intermitiram, prolongando-se, contínuos, das seis da tarde às cinco do amanhecer.
Não visavam rasgar um caminho à fuga. Empenhando-se todos ao sul atendiam à conquista momentânea das cacimbas, ou gânglios rebalsados do Vaza-Barris. Enquanto o grosso dos companheiros se batia, atraindo para o âmago do arraial a maior parte dos sitiantes, alguns valentes sem armas, carregando as borrachas vazias, aventuravam-se até à borda do rio. Avançavam cautelosamente. Abeiravam-se das poças esparsas e raras, que salpintavam o leito; e enchendo as vasilhas de couro volviam, correndo, arcados sob as cargas preciosas.
Ora, esta empresa, a princípio apenas difícil, foi-se tornando, a pouco e pouco, insuportável.
Descoberto o motivo único daqueles ataques, os sitiantes das posições ribeirinhas convergiam os fogos sobre as cacimbas, facilmente percebidas — breves placas líquidas rebrilhando ao luar ou joeirando, na treva, o brilho das estrelas...
De sorte que, atingindo-lhes as bordas, os sertanejos tinham, em torno e na frente, o chão varrido à bala.
Avançavam e caíam, às vezes, sucessivamente, todos.
Alguns antes que chegassem às ipueiras esgotadas, reduzidas a repugnantes lamacerios; outros quando, de bruços, sugavam o líquido salobro e impuro; e outros quando, no termo da tarefa, volviam arcando sob os bogós repletos. Substituíam-nos outros, rompendo desesperadamente contra os tiroteios, afrontando-se com a morte. Ou, o que em geral sucedia, deixavam que se atreguasse a repulsa enérgica e mortífera e se descuidassem os soldados vigilantes. Mas estes, conhecendo-lhes os ardis, sabiam que tornariam outra vez em breve. Aguardavam-nos, pontarias imóveis, ouvidos armados ao menor ruído, olhos frechando, fitos, as sombras, como caçadores numa espera. E divisavam-nos, de fato, transcorridos minutos, indistintos, vultos diluídos no escuro, na barranca fronteira; e viam-nos, descendo lento e lento por ela abaixo, de bruços, rentes com o chão, vagarosamente, num rastejar serpejante de grandes sáurios silenciosos; e viam-nos depois, embaixo, arrastando-se pelo esteiro areento do rio...
Seguravam as pontarias. Deixavam-nos aproximar-se, e deixavam-nos atingir os estagnados que eram o chamariz único daquela ceva monstruosa.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.