Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Como se revela em burlesca proeza o primeiro ou mais antigo herói da Rua do Ouvidor; conta-se a história de duas ceias no fundo da taberna de Manoel Gago e como pela sua singular habilidade pregou famosa logração a três amigos o Belo Senhor, interessante celebridade do Rio de Janeiro, rematando-se esta tradição com o conselho um pouco profético dado por Agostinho Fuas, um dos logrados, ao Belo Senhor.
A rua que em 1780 recebeu a denominação do Ouvidor teve por seu primeiro herói em burlesca proeza o Belo Senhor.
Talvez que bem poucos dos meus leitores saibam quem foi o Belo Senhor; aliás a mais famosa personagem travessa e infelizmente muito pior do que travessa da cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século passado e que acabou ignorado morrendo não sei em que ano do princípio do atual.
O Belo Senhor chamava-se José Joaquim de...; nascera na cidade do Rio de Janeiro, onde seus pais (creio que pelo menos o pai era de Portugal) o fizeram receber limitada instrução acima da primária, mostrando-se ele, porém, muito inteligente, e sobretudo, maravilhoso em caligrafia.
Era de tanta beleza varonil no rosto como bem talhado de corpo; de espírito sutil, de gênio alegre e folgazão, dançando com o maior primor, cantando agradavelmente, merecera por tudo isso a desvanecedora alcunha de Belo Senhor, que por certo não foram os homens que lhe puseram.
Em sua juventude gozou o Belo Senhor a vida, esbanjando o tempo, e só ocupado de folguedos e de prazeres; ao menos, porém, isento de abusos e de atos criminosos que mancham o homem.
É nessa idade louçã, de alegrias e de devaneios, que se apresenta o mais antigo herói de travessura curiosa passada na Rua do Ouvidor.
O que passo a referir é tradição que ouvi não só a um, mas a alguns velhos que conheceram o Belo Senhor, e entre esses há um respeitável e estimadíssimo cirurgião que em idade muito avançada faleceu em 1877.
Nesta tradição pertencem-me os nomes dos tafuis amigos do Belo Senhor, a data precisa da segunda ceia, e os diálogos; porque não fui informado daqueles nomes, e nem da data que marquei para dar certa vida à tradição.
Tudo mais, isto é, a primeira e a segunda ceia, as fivelas e a casaca novas, e a surpresa causada pela presença da Rosinha, atriz da casa da ópera, devem considerar-se, e pelo menos eu reputo de tradição verdadeira.
E agora conto a proeza do Belo Senhor, sem mais prelúdios, nem cerimônias.
Companheiro assíduo dos mais elegantes e ricos tafuis do seu tempo, o Belo Senhor; que, muitas vezes, por seus dotes naturais, pelo seu espírito e por suas prendas ganhava, mais do que eles, agrados das senhoras nas reuniões e saraus, quase sempre baldo ao trunfo não os podia igualar no luxo dos vestidos sempre novos, e na magia do ouro, com que era posto em derrota na disputa de certos amores.
Uma noite, em 1783, ou pouco depois, em companhia de alguns desses tafuis, todos de boas e ricas famílias, o que não os impedia de render vassalagem à extravagância, que também é rainha da mocidade, ceava o Belo Senhor peixe frito com pimentões, chouriço de porco e rim de vaca assado e bebia vinho do Ponto, em saleta reservada do fundo da famosa taberna de Manoel Gago, sita à Rua do Ouvidor; esquina da Rua dos Latoeiros.
Ninguém se admire da escolha de uma taberna para uma ceia desses tafuis.
Ainda depois de estabelecidos os hotéis e em anos que chegavam ao termo da primeira metade do nosso estupendo século, não faltavam hóspedes muito sérios às saletas dos fundos de certas tabernas para cear sardinhas fritas com pimentões, e rim assado com o indispensável molho de pimenta de cheiro.
Era costume do século passado, que se conservava no atual, e as tabernas preferidas só admitiam nas saletas fregueses conhecidos e de boa companhia.
Trata-se, porém, da ceia dos tafuis.
Em ajuntamento de mancebos que só pensam em divertir-se e rir, há de ordinário uma vítima de escolha ocasional.
Nesta noite a vítima era o Belo Senhor.
Afonso Martinho tinha dito que ele trazia nos sapatos o testemunho de impostura e falsidade; porque as fivelas que tinham passado por ser de ouro já estavam por velhas perdendo o dissimulo e denunciando a prata que nem era de lei.
O Belo Senhor comia então uma posta de pescada, e não respondeu.
As fivelas dos sapatos do Belo Senhor estão em harmonia com a sua casaca de uso ordinário, como hoje, e que, como todos vêem, já está perdendo o pêlo! exclamou Domingos Lopo.
- É avareza desse demônio: devemos castigá-lo; proponho que de hoje a oito dias o Belo Senhor seja obrigado a pagar-nos aqui mesmo ceia dez vezes melhor do que esta, que eu hoje pago; disse a zombar Antônio Pereira.
Mas quando Domingos Lopo falava, o Belo Senhor estava-se regalando de chouriço com farinha de mandioca; e quando Antônio Pereira o emprazou para a ceia que havia de pagar, ele saboreava o rim assado, temperando-o no molho de pimenta de cheiro, e não deu resposta nem a um, nem a outro, e menos ainda pareceu ressentir-se.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.