ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.
Por Machado de Assis (1904)
Oh, bene, para falar como o meu capucho, por que é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se pode: dou-lhe vinte capítulos para alcançá-lo. Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro nada. Vá que malignos atribuam a frei*** alguma paixão profana; ainda assim não se compreende que ele se descobrisse por aquele modo. Quanto ao maltrapilho, a que damas queria ele agra dar, a ponto de trocar algumas vezes o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, pode ser. O frade, lido na Escritura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egito, teria também chorado, e as suas lágrimas caíram negras. Pode ser, repito. Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas corpus.
CAPÍTULO XXIV
ROBESPIERRE E LUÍS XVI
Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia. chegaram a incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela Rua da Carioca. Havia ali uma loja de vidraceiro, com espelhos de vário tamanho, e, mais que espelhos, também tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando à toa. Logo depois, Pedro viu pendurado um retrato de Luís XVI, entrou e comprou-o por oitocentos réis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. Paulo quis ter igual fortuna, adequada às suas opiniões, e descobriu um Robespierre. Como o lojista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.
—Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei mártir?
—Há de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro, redargüiu o velho lojista. Nós vendemos conforme o preço da compra. Veja; está mais nova.
—Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale mais que aquele.
—Ouvi dizer que também era rei...
—Qual rei! responderam os dous.
—Ou quis sê-lo não sei bem...
Que eu de histórias, apenas conheço a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em verso. E ele ainda há mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao marido! E foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso turbante na cabeça. (O efeito da beleza! Os rapazes esqueceram por um instante as opiniões políticas e ficaram a olhar longamente a figura de Corina. O lojista, apesar dos seus setenta anos, tinha os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a boca um tanto grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quisesse comprá-la, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outra, mas esse era "uma pouca-vergonha", frase que os deuses lhe perdoariam, quando soubessem que ele não quis mais que abrir o apetite aos fregueses. E foi a um armário, tirou de lá, e trouxe uma Diana, nua como vivia cá embaixo, outrora nos matos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos políticos.
Quis ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não ter dinheiro disponível, e Paulo disse que não daria um vintém pela "cara de traidores". Antes não dissesse nada! O lojista, tão depressa lhe ouviu a resposta como despiu as formas obsequiosas, vestiu outras indignadas, c bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão.
—Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho, mau irmão, mau tudo. Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no Inferno, onde está, se a religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou há pouso em rei mártir, — continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito, — este é que foi um verdadeiro mártir daquele, que lhe roubou o trono, que não era seu, para dá-lo a quem não pertencia; e foi morrer à míngua o meu pobre rei e senhor, dizem que na Alemanha, ou não sei onde. Ah! malhados! Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquela canalha de liberais.
Liberais! Liberais do alheio!
—E tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.
—Eu não sei se eles eram de farinha, sei que levaram muita pancada.
Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!
Pedro quis responder ao remoque do irmão; e propôs comprar o retrato de Pedro I. Quando o lojista tornou a si, começou a negociar a venda, mas não puderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos réis do outro, o lojista pedia dous mil-réis. Nota, va-lhe que estava encaixilhado, e Luís XVI não, além disto, era mais novo. E vinha à porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a atenção para o rosto, os olhos principalmente, que bela expressão que tinham!
E o manto imperial.
—Que lhe custa dar dous mil-réis?
—Dou-lhe dez tostões: serve?
—Não serve. Mais que isso me custou ele.
—Pois então...
—Veja sempre. Pois isto não vale até três mil-réis? O papel não está encardido; a gravura é fina.
—Dez tostões, já disse.
(continua...)