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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

O grande acontecimento da quinzena é a formidável insurreição operária que rebentou nos Estados Unidos. As companhias de caminhos de ferro de Baltimore e Ohio reduziram os salários dos empregados de dez por cento e aumentaram duas horas de trabalho por dia. Isto originou uma greve. As companhias recrutaram novo pessoal, mas os grevistas atacaram estes intrusos, espancaram a polícia que os defendia e, final-mente,. resistiram à Guarda Nacional. O movimento, então, espalhou-se como fogo em restolho: dez estados tomaram parte na resistência, a greve estendeu-se a cinquenta mil milhas de caminho de ferro, a população baixa tomou o partido dos grevistas e esteve-se em véspera de uma temerosa guerra civil. Houve verdadeiras batalhas entre os insurrectos e a tropa, e pode-se fazer uma ideia do desastre sabendo que só em Pittsburgh os prejuízos causados pela insurreição elevam-se a três mil e seiscentos contos!

Infelizmente as tropas dos Estados Unidos estão muito espalhadas, ocupadas sempre em escaramuças com os índios do interior; e como a maior parte dos caminhos de ferro estavam inúteis não foi possível enviá-las logo para os pontos ameaçados; por outro lado, a Guarda Nacional, composta da plebe, simpatizava por quase toda a parte com a insurreição, ou pelo menos não a atacou com energia. Felizmente, porém, os cidadãos, vendo o perigo, organizaram-se em comités, armaram-se, improvisaram-se em exército e conseguiram dominas a insurreição.

Tem-se procurado investigar as causas que quase tornaram uma greve numa guerra civil, e tem-se dito geralmente que o motivo principal foi o ódio que existe na América contra as companhias de caminhos de ferro.

Com efeito, o seu enorme poder, a sua maneira despótica de servir o público, o excesso das suas tarifas, as vergonhosas especulações que elas fazem, a pouca atenção que dão à segurança dos passageiros, as fraudes que se cometem no transporte de mercadorias – tudo isto tem-lhes alienado as simpatias da nação.

Lembram-se, decerto, que a agitação grangista teve há anos por origem a organização de uma forte resistência contra a tirania das companhias; os preços excessivos por que elas transportavam todos os produtos agrícolas, sobretudo os grãos do interior da América para os portos do Atlântico, absorvendo o melhor do produto das lavouras, chegaram a causar uma tal oposição que se falou por esse tempo em revolução da parte da população agrícola do Oeste. Não é sem razão, pois, que se pensa que as simpatias que a população mostrou pela causa dos grevistas foram devidas a este sentimento de hostilidade.

Isto, porém, não basta para explicar uma tão formidável insurreição, uma insurreição que fez milhões e milhões de prejuízos, que dispunha de artilharia, que formou campos entrincheirados e que se preparava simplesmente para sustentar uma guerra civil. A explicação, enquanto a mim, é esta: a greve foi desenvolvida e transformada em revolta pelo imenso partido socialista ou comunista.

Este partido, na América, é muito diferente dos socialistas europeus: aqui o socialismo é um sistema social, político, moral, religioso. Na América o socialismo é uma hostilidade bruta e instintiva contra todo o que possui e que acumula; lá não há ideias, há apetites insatisfeitos. E o chamar realmente a esses grupos socialistas é um erro que cometem frequentemente os jornais europeus; na América dão-lhes um nome mais exacto, chamam-lhes os roughs, isto é, a rudez, a canalha. Esta multidão violenta é, sobretudo, estrangeira; não se deve esquecer que a América é um refúgio, um asilo, o último recurso de tudo o que a Europa tem de gente aventureira, turbulenta, descontente, ávida e viciosa. A Irlanda, a França, a Alemanha mesmo, mandam o que têm de pior – a par, já se vê, de muito trabalhador honesto e útil. Esta multidão que vai procurar trabalho tem a mania de se acumular nas cidades; ser-lhe-ia fácil encontrar emprego altamente remunerado no interior, nos estados agrícolas tão faltos de braços; mas os seus hábitos, os seus vícios, a antipatia pela lavoura, prende-os às cidades. Aí, naturalmente, o trabalhador é menos necessitado, e portanto milhares desses emigrantes encontram-se na miséria, na ociosidade e na desesperação. Nova Iorque, Filadélfia, San Francisco, Baltimore, Chicago, transbordam desta canalha. Ora justamente sucede que, nestes últimos tempos, a crise prolongada dos negócios, na América, tem dado a esta população dias muito prolongados de miséria; e já há tempos se notava nela uma funda e crescente irritação. O sentimento que a domina é uma espécie de cólera bruta contra uma sociedade rica, onde eles são mendigos – e contra um mundo que goza, e no meio do qual eles sofrem.

(continua...)

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