Por Eça de Queirós (1925)
Foi um verão desgraçado para o pobre Arthur, n'aquella casa triste, em que lhe parecia sempre ouvir as martelladas sobre o caixão da mãe e sentir ainda o cheiro das tochas de cera e os suspiros cerimoniosos de pezames. As ultimas semanas, sobre tudo, foram as mais melancolicas, deante d'aquelle pae carregado de luto, com os olhos inflammados das lagrimas e que agora, tomado tambem de presentimentos de morte, lhe fallava constantemente do futuro, da necessidade de trabalhar, da dÔr de o deixar sem recursos. Nem ao menos tinha o seu velho amigo Silveira para desabafar : contára deslumbral-o com as historias do Cenacuto e os enthusiasmos lá adquiridos, mas o Silveira estava a banhos em Espinho, onde fazia palpitar o coração das senhoras com o seu bigode fatal, as suas ima geng, o seu cão da Terra-Nova e a sua capa á hespanhola. A volta para Coimbra foi para Arthur um allivio.
Tinha esquecido inteiramente a senhora da Calgada. Vinha então com idéas mais definidas de carreira e resoluções d'estudar. A publicação feliz do D. Jayme déra-lhe a ambição de compor, durante a formatura, um poema historico ; iria depois estabelecer-se em Lisboa, advogar e lançar a sua epopeia. Andava procurando um assumpto, quando a leitura da Vida de Jesus, de Renan, o enthusiasmou pela Judéa e pela legenda Messianica. Veio-lhe a idéa, que julgou grandiosa, de refazer o Evangelho, pintar n'um poema social um Jesus pallido e louro, errando pelos valles nazarenos e junto dos lagos syrios, amado das mulheres e das creanças, ensinando a Democracia ás almas ternas. Mas o Damião, consultado, escarneceu a idéa. No progresso da sua evolução intellectual, lançara-se, com o grupo do Cesario, no culto exclusivo de Proudhon, Stuart Mill e Augusto Comte, e não comprehendia realmente o que vinham fazer Jesus, Magdalena e os sycomoros da Bethauia, em pleno seculo XIX, á hora do Positivismo e do Socialismo ! Que o cara Arthur cantaase a Revolução, o povo e o seu an• tigo opprobrio ! Que fosse Virgilio fazendo a epo• peia synthetica d'um novo mundo, ou Juvenal lancando a satyra d'um mundo decrepito . . . Mas que deixasse os lyrismos evangelicos ás duquezas chloroticas do Faubourg St. Germain ! . . . Arthur não foi Virgilio, nem Juvenal, mas desistiu do poema sobre Christo, como abandonara o poema historico sobre D. Sebastião. Cahiu então, de repente, sem motivo, n'uma desconsolação vaga da vida, tomado do tedio de todas as realidades, a alma cheia de ambições ennevoadas de felicidades indefinidas. De novo odiou os compendios ; sentia-se vazio d'imagens e de rimas : uma quadra custava-lhe os esforços dolorosos d'uma epopeia. De tarde, lá seguia pela Sophia, murcho, encolhido dentro da capa, com o gorro enterrado até ao cachaço, arrastando-se para o Choupal, a saturar-se de melancolia ; de noite, ou ia para o Penedo da Saudade, olhar para a lua, no valle, ou ficava no quarto do Damião, no fogo das conversas do Cenaculo, sem achar uma phrase, um dito, mais triste por aquella esterilidade.
— Este Arthur é prodigioso — dizia o Cesario; Está aos dezanove annos como Byron aos trinta. Com esta precocidade de sentimentos, ha-de vir a ser um grande idiota !
Foi por este tempo que Theodosio o levou, uma noite, a casa da Anninhas Serrana, ao tempo a meretriz mais cara de Coimbra, o sonho ardente de toda a academia pobre, a quem o Taveira, n'uma poesia delirante, chamara estrophe de carne e Venus christã b. A Anninhas tinha na janella cortinas de reps amarello, usava um roupão côr de fogo e lia a Dama dag Cameliag ; contava-se como uma legenda singular que tomava banho e era certo que o Salgado se tinha envenenado por ella. Tanto romantismo fascinou Arthur ; dedicou-lhe tercetos no Pensamento e a Anninhas, conquistada, concebeu por elle um capricho, gratis. Na madrugada em que elle sahiu do seu leito, extenuado de amor, sentiu que toda a melancolia d'aquelles mezes passados se lhe dissipara como uma nevoa ao sol quente de Maio ; a sua vida tinha agora um centro e uma significação : queria ser o Armand Duval d'aquelle anjo, regeneral-o pelo amor e immortalisal-o n'um poema, como o Intermezzo.
Duas uemanas depois, a Anninhas abandonou-o por um caixeiro da Sophia. Chorou de dôr. Na megma pagina do Pensamento em que a celebrara, insultou-a agora, com estrophes amargas á Mulher de Marmore ; e no baile de terça-feira d' Entrudo, no theatro D. Luiz, exaltado de genebra, vendo-a pular vestida d'odalisca, n'uma polka frenetica, exclamou com tremendo escandalo :
— Folga, vil Messalina . . . És podridão e em podridão te tornarás ! Perneia, prostituta ! Oh, Serrana, oh, magana, restitue-me as piugas que te deixei no prostibulo . . .
O par d'Anninhas, um quartanista desempenado, grande gymnasta, esbofeteou-o immediatamente. Foi um episodio temeroso. Arthur queria esperal-o á sahida para o apunhalar. Enfrascou-se de cognac até se tornar feroz . . . E os companheiros tiveram de o arrastar para casa, idiota d'alcool, abraçando-se a todos os candieiros, regando-os de lagrirnas, e gemendo :
— Mulher, teu nome é vileza !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.