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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Quem sabe? Um doce silêncio caía sobre a terra. Em Nazaré o carpinteiro aplaina a sua tábua, e S. João com os cabelos ao vento partia para o deserto. Mas já ao longe brilham as claras águas de um lago, com barcos amarrados na areia: Jesus fala devagar, erguendo o braço; e os pescadores deixam as suas redes, os semeadores esquecem a sementeira, os publicanos deixam os seus postos, os pobres saem dos cotovelos das estradas, e Jesus, seguido de todos, começa a caminhar pela Judéia. Uma incomparável doçura enche a vida dos homens. Jesus está entre eles. Os que não podiam ver, aclamam o esplendor da luz; os que não andavam, galgam, cantando, as colinas; todos os demônios se somem; os mortos desatam as suas ligaduras; não há dor que não espere consolação; as crianças têm um amigo, e as multidões, nas aldeias, vêem o pão nascer do pão.

Por que vai ele a Jerusalém, terra dura, onde os homens, com as barbas agudas, gritam uns contra os outros, brandindo rolos da Lei? Mas, que importa! Ele vai para tornar os homens melhores, e o povo vai com ele, cantando. É então que o céu se começa a tornar escuro. Os fariseus tramam baixo sob as arcadas do templo. E uma ansiedade pesa na terra...

E uma ansiedade enche também a face de Cristóvão. Porque não permanecera ele sempre Menino, sobre os joelhos da mãe, quando a Estrela luzia, e ele estendia a mãozinha para o focinho da vaca? Ou, se devia ser homem, porque deixou ele a beira do lago, e os caminhos verdes, onde a cada um dos seus passos a terra se tornava melhor, e melhor a alma dos homens?

— Tens pena, Cristóvão?

Era Etelvina que assim murmurava com os olhos apiedados.

Ele moveu a cabeça, em silêncio. O seu vasto peito arfava, e um terror invadia-o de o ver a ele, tão bom, naquela cidade onde os homens eram tão duros.

— E depois?

Alfredo disse então os dias derradeiros. Tristemente, Jesus, sozinho, sobe, ao cair da tarde, para o vergel de Betânia. Aí são as melancolias de uma felicidade que finda. Madalena, desgrenhada, lava os seus pés cansados. Marta fia, com um fiar tão lento como se fiasse um sudário. Mas já Jesus se senta Para a última ceia. S. João inclina a cabeça sobre o seio do Mestre. Judas aperta, sob a túnica, a sua negra bolsa. Jesus diz: “Em breve não estarei mais entre vós”. A noite é escura; Jesus sobe devagar o monte, onde há oliveiras; e um anjo, todo coberto de negro, marcha ao seu lado. Um vento passa no ramo das oliveiras. Um rumor de armas vem com o vento que passa...

Nos olhos de Cristóvão borbulhavam grossas lágrimas. E Alfredo dizia as tochas surgindo na escuridão das ramagens, os soldados brutais, e a prisão do Senhor. Por que o prendiam assim, e levavam ele, mais doce do que o anho? Ei-lo que passa! E os seus pés, que encontravam o caminho do bem, sangram sobre as lajes duras, da casa de Pilatos à casa de Caifás. Traz sangue na face, as mãos arroxeadas pelas cordas, os ombros riscados pelas vergas: - e a sua doçura é tão grande que diz: “Por que me bateis?” A cruz que lhe dão é tão pesada, que cai uma vez, outra vez, ferindo os joelhos nas pedras, com grandes bagas de suor na face... Mas eis que em tropel todos sobem a colina: cravam com grandes pregos as suas mãos sobre o madeiro; cravam no madeiro os seus pés com grandes pregos... E da água com que ele secava a sede das multidões pede, sem que ninguém o escute, um trago que mate a sua sede. Os homens maus atiravam pedras à sua cruz. E todo o mal era feito Àquele que não fizera senão bem!

E então um grande suspiro abalou o vasto peito de Cristóvão, e, na solidão do

bosque, gritou:

— Oh! Por que não estava eu lá com os meus braços!

Os dois bem-amados estavam de pé diante dele, e o homem enorme chorava. Chorava pela morte d’Aquele que conhecera tão tarde. Chorava por todos os que, morto ele, perdiam o amigo melhor dos homens. – Mas por que o mataram? por que o mataram? E Cristóvão, deixando os dois desceu a colina, chorando.

A noite caía no vale. Um vento triste vergava os canaviais. E Cristóvão seguia e chorava. Os seus vastos pés empurravam as rochas como seixos. O seu ombro, ao passar, quebrava os ramos tenros. Oh! se ele estivesse então no monte escuro onde o prenderam! O seu braço sacudiria, como ervas secas, as espadas reluzentes. Tomaria sobre o seu ombro o Mestre adorável. Fugiria com ele para a paz dos campos; e como um cão fiel, junto aos seus passos, defenderia dos soldados, dos padres, aquele corpo que era de Deus, e espalhava Deus entre os homens.



(continua...)

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