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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

A Sra. D. Maria da Assunção vestira-se, como nos domingos, de seda preta: o seu chinó, dum louro avermelhado, estava coberto com as rendas de um enfeite negro; as mãos descarnadas, calçadas de mitenes, solenemente pousadas no regaço, reluziam de anéis; do broche sobre o pescoço até ao cinto, um grosso grilhão de ouro caía com passadores lavrados. Conservava-se direita e cerimoniosa, com a cabeça um pouco de lado, os óculos de ouro assentes sobre o nariz acavalado: tinha no queixo um grande sinal cabeludo; e quando se falava de devoções ou de milagres dava um jeito ao pescoço, e abria um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas. Era viúva e rica, e sofria dum catarro crônico.

- Aqui tem o senhor pároco novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joaneira.

Ela ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, comovida.

- Estas são as senhoras Gansosos, há-de ter ouvido... disse a S. Joaneira ao pároco.

Amaro cumprimentou timidamente. Eram duas irmãs. Passavam por ter algum dinheiro, mas costumavam receber hóspedes. A mais velha, a Sra. D. Joaquina Gansoso, era uma pessoa seca, com uma testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no seu xale, direita, com os braços cruzados, falava perpetuamente, numa voz dominante e aguda, cheia de opiniões. Dizia mal dos homens e dava-se toda à Igreja.

A irmã, a Sra. D. Ana, era extremamente surda. Nunca falava, e com os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar tranqüilamente os dois polegares. Nutrida, com o seu perpétuo vestido preto de riscas amarelas, um rolo de arminho ao pescoço, dormitava toda a noite, e só acentuava a sua presença de vez em quando por suspiros agudos; dizia- se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor do correio. Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papéis para caixas de doce.

Estava também a Sra. D. Josefa, a irmã do cônego Dias. Tinha a alcunha de castanha pilada. Era uma criaturinha mirrada, de linhas aduncas, pele engelhada e cor de cidra, voz sibilante; vivia num perpétuo estado de irritação, os olhinhos sempre assanhados, contrações nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho chamava-lhe a estação central das intrigas de Leiria.

- Então passeou muito, senhor pároco? perguntou ela logo empertigando-se.

- Fomos quase até lá ao fim da estrada de Marrazes, disse o cônego, sentando-se pesadamente por detrás da S. Joaneira.

- Não achou bonito, senhor pároco? acudiu a Sra. D. Joaquina Gansoso.

- Muito bonito.

Falaram das lindas paisagens de Leiria, das boas vistas: a Sra. D. Josefa gostava muito do passeio ao pé do rio; até já ouvira dizer que nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja da Encarnação, no alto.

- Desfruta-se muito, dali.

Amélia disse sorrindo:

- Eu por mim gosto daquele bocado ao pé da Ponte, debaixo dos chorões. - E partindo com os dentes o fio da costura: - É tão triste!

Amaro olhou para ela, então, pela primeira vez. Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito; o pescoço branco e cheio saía dum colarinho voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes brilhava; e pareceu ao pároco que um buçozinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra sutil e doce.

Houve um pequeno silêncio, - o cônego Dias com o beiço descaído ia já cerrando as pálpebras.

- Que será feito do Sr. padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.

- Está talvez com a enxaqueca, pobre de Cristo! lembrou piedosamente a Sra. D. Maria da Assunção.

Um rapaz que estava junto do aparador disse então: - Eu vi-o hoje a cavalo, ia para os lados da Barrosa.

- Homem! disse logo, com azedume, a irmã do cônego, a Sra. D. Josefa Dias, é milagre ter o senhor reparado!

- Por quê, minha senhora? disse ele erguendo-se e chegando-se ao grupo das velhas.

Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pele branca, regular, um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, caído aos cantos, que ele costumava mordicar com os dentes.

- Ainda ele o pergunta! exclamou a Sra. D. Josefa Dias. O senhor, que nem lhe tira o chapéu!

- Eu?

- Disse-mo ele, afirmou ela com uma voz cortante. E acrescentou:

Ai, senhor pároco, bem pode chamar o Sr. João Eduardo para o bom caminho. - E teve um risinho maligno.

- Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, disse ele rindo, com as mãos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amélia.

- É uma graça! exclamou a Sra. D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o senhor disse hoje lá em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não há-de ganhar o Céu!

- Ora essa! gritou a irmã do cônego, voltando-se bruscamente para João Eduardo. Então o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é uma impostora?

- Credo, Jesus! disse a Sra. D. Maria da Assunção, apertando as mãos e fitando João Eduardo, com um terror piedoso. Pois ele havia de dizer isso? Cruzes!

(continua...)

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