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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o Açor negro em campo escarlate, se plantara diante das barreiras gateadas; e ao lado, no chão, amarrado à haste por uma tira de couro, reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo caldeirão polido. Por todo o Castelo se apressavam os serviçais, despendurando as cervilheiras, arrastando com fragor pelas lajes os pesados saios de malhas de ferro. Nos pátios os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes com camadas de estopa. Já o adail, na ucharia, arrolara as rações de vianda para os dois quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa Irenéia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos, abafados no arvoredo, tararã! tararã! ou mais vivos nos cabeços, ratatá! ratatã! convocavam os Cavaleiros de soldo e a peonagem da mesnada dos Ramires.

No entanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado em beguino, de volta ao castelo de Aveiras com a boa nova de prestes socorros, transpunha ligeiramente a levadiça da cárcova... E aqui, para alegrar tão sombrias vésperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastara uma sorte galante:

À moça, que na fonte enchia a bilha, O frade rouba um beijo e diz Amém!

Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de Clérigo a pompa daquela formosa sortida de armas... E mordia pensativamente a rama da pena - quando a porta da livraria rangeu.

- O correio...

Era o Bento com os jornais e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, lacrada com o enorme sinete de armas do Barrolo - repelindo a outra em que reconhecera a letra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E imediatamente, com uma palmada na mesa:

- Oh diabo! quantos do mês, hoje? quatorze, hem?

O Bento esperava com a mão no fecho da porta.

- É que não tardam os anos da mana Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter umpresentinho engraçado... Que seca, hem?

Mas na véspera o Manuel Duarte, na Assembléia, à mesa do voltarete, anunciara uma fuga a

Lisboa por três dias, para tratar do emprego do sobrinho nas Obras Públicas. Pois corria a Vila -Clara pedir ao Sr. Manuel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho de seda branca com rendas...

- O Sr. Manuel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E então o Joaquim que não sele a égua; jánão vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Há três meses!... Enfim, por dois dias mais a bela D. Ana não envelhece; e o velho Lucena também não morre.

E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazão, retomou a pena, arredondou o seu final com elegante harmonia:

"A moça, furiosa, gritou: Fu! Fu! vilão! E o beguino, assobiando, aligeirou as sandálias pelo córrego, na sombra das altas faias, enquanto que por todo o fresco vale, até Santa Maria de Craquede, os atambores mouriscos, tararã! ratatã! convocavam a mesnada dos Ramires, na doçura da tarde..."

III

Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou com aferro e proveito. E nessa manhã, depois de repicar a sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrara a porta da livraria, avisando o Sr. Doutor "que o almocinho, assim à espera, certamente se estragava". Mas de sobre a tira de almaço Gonçalo rosnava "já vou!" - sem despegar a pena, que corria como quilha leve em água mansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almoço, o seu Capítulo I.

Ah! e que canseira lhe custara, durante esses dias, esse copioso Capítulo, tão difícil, com o imenso Castelo de Santa Irenéia a erguer; e toda uma idade esfumada da História de Portugal a condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse uma ração nos alforjes, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na véspera, já movera para fora do Castelo o troço de Lourenço Ramires, em socorro de Montemor, com um vistoso coriscar de capelos e lanças em torno ao pendão tendido.

(continua...)

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