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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Este insulto foi providencial. Foi como mão de ferro, que me apertou o coração até esvurmar dele as fezes do vilipendioso amor. Saí de Lisboa, no mais agreste do Inverno, e fui para Santarém, onde vi o santo milagre largamente contado no livro das viagens do adorável poeta da Joaninha do Vale.

Estava, naquela estação, desabrida em Santarém a natureza. Eu queria chorar sozinho em algum recanto daquelas frondosas encostas e dessedentar-me da sede de amor, dando o coração às maravilhas da Terra e do Céu. Esperava eu que a soledade e a contemplação me refrigerassem a alma e a depurassem das imundícies em que a pobrezinha caíra, como pomba que, fatigada de voejar, não achou outro poisadeiro. A estas esperanças me haviam induzido alguns filósofos, que tinham o mundo em ódio e acharam no ermo conforto e bem-aventurança. Neste pressuposto, fui dar o primeiro lance de olhos amoroso à natureza, subindo àquela empinada eminência que lá chamam a Porta do sol. Apenas assomei ao alto, fiquei comovido das blandícias da natureza, que fez favor de me tirar o chapéu da cabeça e mo enviou para além-Tejo nas asas dum furacão. Retrocedi vexado da grosseira e sentei-me a recomendar à natureza de Santarém e ao Diabo os filósofos encomiastas do campo. Rompeu-se uma nuvem, e eu abri o guarda-chuva contra a bátega do vento; uma refega contrária apanhou-mo por dentro em cheio e converteu-mo em roca. A fugir da trovoada desfeita, entrei por um portal. Um cão rafeiro, denominado pelos filósofos o amigo do homem por excelência, arremeteu contra mim e, covardemente, quando eu fugia, me arrancou a aba esquerda do fraque. Deste feitio me recolhi à estalagem da Sra. Felícia, pessoa de agradável sombra, que se condoeu sinceramente da minha angústia muda.

Mal me tinha eu apaziguado dos frenesins da minha irrisória raiva contra a natureza, quando o administrador do conselho mandou perguntar-me quem eu era e que vinha fazer a Santarém, caso não apresentasse passaporte. Respondi categoricamente que era viajante e que o meu passaporte era a minha inocência das coisas alheias ao coração e o desprezo em que tinha futilidades com que a república era administrada.

A autoridade, maravilhada de tão farfalhuda resposta, quis conhecer pessoalmente o discípulo de Diógenes que discreteava na estagem da Sra. Felícia, e foi procurar-me. Corremos aos braços um do outro. Tínhamos sido condiscípulos na Universidade, e cinco anos amigos. Fui ser seu hóspede, e resolvi demorar-me alguns meses em Santarém.

Uma tarde, recebeu o meu amigo, da mão de um oficial de diligências, um ofício do governador civil para imediatamente dar busca na estalagem da Sra. Felícia, onde se presumia estar uma menina nobre, fugida de Lisboa com um sedutor. Ordenava a autoridade superior que o raptor fosse enviado à cadeia e a menina recolhida, até novas ordens, num convento.

O meu amigo lera em voz alta o ofício e mentalmente a participação do governador civil de Lisboa conteúda no ofício. Observei que ele, depois dum trejeito de pasmo, abriu os beiços para me dizer alguma coisa, mas susteve-se, e sorriu com certa malícia.

- Queres tu vir na qualidade de aguazil acompanhar-me nesta diligência? - disse-me ele.

- Vou - respondi -; mas, se tu és homem de coração, como creio, dá escápula aos infelizes, que se amam: não queiras sobre o coração a responsabilidade de dois suicídios. Não achas horrível a prisão para ele e um convento para a pobre menina? Que lucro tira a moral pública de redobrar o escândalo e ajuntar à vergonha uma inútil barbaridade?!

- Mas que queres tu que eu faça?

- Que vás à estalagem, que finjas a busca e por portas travessas deixes fugir a mulher, que a lei chama raptada, e o rapaz, que bem pode ser que, em vez de roubador, seja ele o verdadeiramente roubado. As vossas leis são assim... Uma mulher foge pela porta ou pela janela da casa paterna; manda adiante as trouxas do seu fato; amua-se contra a frieza do amante, se ele lhe faz reflexões para a conter em casa; vai ter, afinal, com ele, dizendo que já não pode esconder aos olhos da mãe o caro penhor que lhe palpita no seio. O pobre moço, obrigado pela honra, pela compaixão e pelo amor dela e do caro penhor, foge também aos pais e vai caminho de Santarém ou doutra parte. Vem depois atrás deles a lei, e diz: “Esta menina foi roubada aos pais; este homem é o raptor desta inocente, que vai violentada como a Fátima de Gonçalo-Hermigues, o Traga-Mouros.” E depois...

- Apanha as velas ao discurso, que não há tempo - atalhou o meu amigo. - Vamos à Felícia, e lá veremos. Se tiverem ares de se amarem como nos romances, a minha misericórdia administrativa velará o escândalo.

Fomos à estalagem. Eram nove horas da noite.

A Sra. Felícia, interrogada pela autoridade, revelou que tinha em sua casa, havia dois dias e duas noites, um sujeito e uma senhora, que se diziam casados e nunca saíam do seu quarto. Ordenou o administrador que os fosse chamar à sala, em observância duma ordem da autoridade.

Meia hora depois entrou na sala o sujeito e a dama. Céus! Expedi do peito involuntariamente um ai agudíssimo, levei as mãos aos olhos e caí numa cadeira, que ia caindo comigo.

(continua...)

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