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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O desembargador inquietava-se com as longas ausências do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia à aldeia a conversar com arvores e penedos e deixava suas primas, que tanto se interessavam em diverti-lo. Nestes queixumes das gentis meninas transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer delas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Afonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da órfã das Ursulinas, se pudesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãozinhos do mesmo incenso de Teodora, não faria menos que odiá-las. Estes escrúpulos são a religião, o ascetismo dos iluminados de amor, iluminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta anos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos também iluminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados neste lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos ver na superfície lamacenta e torva espelharem as estrelas do céu da nossa mocidade!

Afonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado às tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica e pura, como um anjo a quisera para si. E o que Afonso pensava do silêncio da mãe e das reflexões do velho.

Estava uma tarde de Agosto, Afonso em Belas. Desde o dia anterior que não voltara a Lisboa. O tio, como ele não voltasse ao segundo dia, meteu-se à sua carruagem e foi procurá-lo e entregar-lhe cartas recebidas do Norte. Uma era de sua mãe, outra de um seu tio paterno, fidalgo de Barcelos, o mais acérrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Correia Figueiroa com uma mulher da Fervença que, dizia ele, por nome não perca.

A carta da mãe dizia simplesmente: Não era digna de ti, meu filho. Deus bem mo tinha dito, e o coração estalava-me em ânsia de to dizer Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.

E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizêlas as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.

A carta de Fernão de Teive era mais prolixa, versando quase toda sobre o casamento de Teodora com Eleutério.

Parecem-me dignos de extracto uns relanços desta carta, que eu copiei do original.

Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estilo picaresco do folhetim: Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcelos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as éguas de albardão e rabicho na parte equestre do préstito, que era luzido, porque os arreios brilhavam, principalmente as barbeias. O noivo ia desencabrestado, visto que tirara bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada. com a cara relambória, levava ares fulos; e procurava as estrelas ao pino do meio-dia, pasmada de ver que elas não vinham à janela admirá-la. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus e parabéns aos nossos antepassados!

Perguntei quem eram os figurões do préstito. O meu sapateiro conhecia quatro.

Varreram-se-me da memória os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum à saúde da noiva. O lapuz do noivo queria montar à Marialva; mas o ginete, quando chegou à Cárcova, festejou a suciata com quatro coices que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ela há-de levar do marido.

Tinhas a corte celestial a pedir por ti. Afonso! Quando te deu na veneta ser marido de Teodora, enquanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai às arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Teodora por Teodora, antes a do papel do mata-borrão, que estoutra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo há-de gastar.

Agora é tempo de te dizer que tens uma prima e eu tenho uma filha. Se a queres esposar. vem quando estiveres farto da capital. Está senhora e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pai. Mafalda parece-me gentil e esbelta. Em palavras é discreta como se os cabelos, em vez de puro ouro, lhos tivesse embranquecido a experiência. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bendizer a mãe que a educou, e o sangue ilustre que lhe forma o coração.

Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras de uma mocidade bem encaminhada e recebe a bênção de teu tio Fernão de Teive.

Lidas estas canas, Afonso levou o lenço ao suor da testa e às lágrimas, que lhe caíram a quatro. o tio, já avisado do sucesso de Braga, discursou largamente, de pitada no dedo e os óculos montados, na mais grave das atitudes. Afonso diz que o não ouvira longo tempo e o abominara depois que o ouvira.

(continua...)

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