Por Machado de Assis (1872)
Era Lívia. Quando Félix chegou à sala, estava ela à porta, com o rosto coberto por um véu que arregaçou imediatamente. Félix não pôde reter um grito de surpresa. Lívia trazia pela mão um menino: era o filho. Caminhou para o médico depois de alguns instantes de absoluto silêncio, e estendeu-lhe a mão.
— Não esperava a minha visita? disse ela com tranqüilidade.
— Confesso que não.
— Devia esperar, porque eu não havia respondido à sua carta, e alguma cousa cumpria que lhe dissesse.
— Não receou que os olhos da sociedade... disse ele.
— A sociedade está tomando chá, atalhou a viúva procurando sorrir. Era preciso que eu viesse e vim.
Félix fez um movimento.
— Sim, era preciso, insistiu Lívia. Uma carta seria já inútil; entre nós as cartas perderam a virtude, Félix. Eu já não sei, já não tenho palavras com que lhe restitua a confiança ao coração. Esta ousadia talvez. . .
A luz batia de chapa no rosto da moça; Félix viu tremerem-lhe duas lágrimas nos olhos, hesitarem um instante, e rolarem depois na face, levemente corada de agitação e de pejo.
— Fui talvez cruel no que lhe escrevi, disse ele, e quero crer que fosse também injusto, mas amo-a, é todo o meu crime...
Lívia suspirou.
— Não o amo eu também? disse ela. Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas não o acuso; se o acusasse não viria aqui. Venho porque sei que padece, e a despeito de tudo devia vir.
Félix conduziu-a para o sofá, e sentou-se numa cadeira. Luís ficou de pé, entre ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem entender.
— Não receou que este menino pudesse dizer alguma cousa? perguntou Félix.
— Não pensei nisso. Fui visitar Raquel, que está muito mal; fui só com ele. Tinha a idéia de vir As Laranjeiras: isso dominava tudo. Se conseguir dissipar-lhe as novas dúvidas que o afligem, pouco me importam as conseqüências. Que quer? Eu sou assim. Vejo no mundo o meu amor e a sua felicidade; tudo o mais me é estranho ou nulo. Lívia dizia estas palavras com um tom singelo e verdadeiramente d'alma, que comoveu o médico.
— Oh! para isso basta uma cousa, disse Félix com impetuosidade. Jura-me que nenhuma razão havia para suspeitar?
Lívia abriu muito os olhos como espantada do que ouvira; depois abanando tristemente a cabeça:
— O senhor há de quebrar todo o meu orgulho, disse com amargura. Eu arrisco tudo para lhe restituir a felicidade e a paz; o senhor recompensa-me este sacrifício com a humilhação. Jurar-lhe! De que serve um juramento mais entre nós? Se o que acabo de fazer não é bastante, Félix, concluamos aqui o nosso romance; e oxalá que alguma página dele possa algum dia lembrar-lhe com saudade.
Dizendo estas palavras, a moça voltou o rosto para esconder a sua comoção. Félix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve ímpeto de cair aos pés da bela viúva. Murmurou algumas palavras,- que ela não percebeu ou não ouviu, até que o menino chamou a atenção de ambos, dizendo:
— Vamos, mamãe?
Lívia levantou-se e desceu o véu sobre o rosto.
— Perdoe-me tudo, disse Félix; ainda uma vez lhe peço perdão. Não me julgue como os outros fariam, se conhecessem esta triste história de alguns meses. Não sou mau; falta me confiança; algum dia lhe direi por quê. Por agora, perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; não devia pedir-lhe nada mais, porque me deu generosamente a maior consolação que o meu espírito ousaria esperar.
— Esse homem? disse a viúva, depois de um instante.
— Por que me pergunta?
— Quero afastá-lo de minha casa, se ele lá vai, ou evitar as ocasiões de me encontrar com ele.
— É um homem que a não respeita, sequer, um libertino, cuja mulher é um anjo...
— O Dr. Batista?
— Esse.
Lívia estendeu-lhe a mão. Félix quis ainda falar-lhe, mas a viúva observou que era tarde e dirigiu-se para a porta. Félix acompanhou-a até o jardim. Ao despedir-se dela pela última vez, o médico apertou-lhe Félix fervorosamente a mão.
— Perdoa-me?
— Sim! disse ela.
E pela primeira vez nessa noite era a sua voz terna e amorosa como de costume. Félix viu-a entrar no carro que partiu imediatamente. Voltou para a sala. Estava irritado contra si mesmo. Reconhecia a sua precipitação; achava-se grosseiramente injusto. Se lhe houvera lembrado a visita da moça, tê-la-ia pedido como o meio único de lhe desvanecer de todo as suspeitas. Agora que ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado àquele extremo recurso.
A noite pareceu-lhe ainda mais longa que o dia. Velava e remordia-lhe a consciência. Ouviu bater uma por uma as horas todas. ansioso por que viesse o dia seguinte para ir a Catumbi resgatar a força de ternura e respeito a injustiça com que tratara a viúva. Cerrou os olhos quando a arraiada despontou no céu; pouco dormiu entretanto. Ao levantar-se tinha o espírito mais sossegado, e pôde apreciar melhor a situação.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.