Por Lima Barreto (1921)
Uma tarde destas, mme Sylvá teve a bondade de convidá-lo e Stronberg não faltou. Vestiu o seu célebre fraque, amarrou bem uma gravata de duas cores e ei-lo em direção às Laranjeiras, onde residia mme Sylvá, evaporando pelo caminho toda a sua importância de deputado anônimo.
Ele tinha torcido com infinito cuidado as guias do bigode; mas, assim mesmo, levou-as a torcer insistentemente pelo bonde afora.
Não havia dúvida que ia fazer uma grande figura, não só por causa de seu todo apolíneo , como também pelo seu saber em matéria de arte e letras clássicas e legais, coisas que os moços do Rio de Janeiro ignoram completamente. Uns fúteis ...
O bonde corria e, vendo entrar uma dama, Stromberg esqueceu os bigodes, deixou cair a clássica bengala de castão de ouro e encalistrou matutamente.
Chegou afinal à casa de mmc Sylvá, não tardou em entrar e ficou no meio de uma seleta companhia.
Serapião levava duas dissertações bem estudadas: uma contra o romantismo piegas, extraordinária novidade na sua terra; e outra sobre a beleza dos frescos da Capela Sixtina que ele nunca tinha visto.
Logo que alguém falou em um autor qualquer, Stromberg fez com um muxoxo:
– Não gosto; é um romântico e o romantismo...
Encetou a dissertação, mas os ouvintes foram escasseando e unicamente uma moça o ficara ouvindo até certo engasgo. Por aí, ela perguntou:
– O doutor não gosta de pintura?
– Muito, minha senhora. Rafael...
– Venha ver uma curiosidade.
E tirou de sobre um móvel um pequeno medalhão insignificante. Stromberg olhou demoradamente e a moça, após algum tempo, perguntou:
– Não gosta?
– Gosto. mme Pompadour , não é minha senhora?
– Não, doutor; é uma miniatura italiana do século XIV.
– Ah! Logo vi que tinha alguma coisa de Luís XIV. Não me enganei de todo... é maravilhoso!
Careta, Rio, 15-5-1915.
ONTEM E HOJE
Como todo o Rio de Janeiro sabe, o seu centro social foi deslocado da Rua do Ouvidor para a avenida e, nesta, ele fica exatamente no ponto dos bondes da Jardim Botânico.
Lá se reúne tudo o que há de mais curioso na cidade. São as damas elegantes, os moços bonitos, os namoradores, os amantes, os badauds , os camelots e os sem esperança.
Acrescem para dar animação ao local, as cervejarias que há por lá, e um enorme hotel que diz comportar não sei quantos milheiros de hóspedes.
Nele moram vários parlamentares, alguns conhecidos e muitos desconhecidos. Entre aqueles está um famoso pela virulência dos seus ataques, pela sua barba nazarena, pelo seu pince-nez e, agora, pelo luxuoso automóvel, um dos mais chics da cidade.
Há cerca de quatro meses, um observador que lá se postasse, veria com espanto o ajuntamento que causava a entrada e a saída desse parlamentar.
De toda a parte, corria gente a falar com ele, a abraçá-lo, a fazer-lhe festas. Eram homens de todas as condições, de todas as roupas, de todas as raças. Vinham os encartolados, os abrilhantados, e também os pobres, os mal vestidos, os necessitados de emprego.
Certa vez a aglomeração de povo foi tal que o guarda civil de ronda compareceu, mas logo afastou-se dizendo:
– É o nosso homem.
Bem; isto é história antiga. Vejamos agora a moderna. Atualmente, o mesmo observador que lá parar, a fim de guardar fisionomias belas ou feias, alegres ou tristes e registrar gestos e atitudes, fica surpreendido com a estranha diferença que há com aspecto da chegada do mesmo deputado. Chega o seu automóvel, um automóvel de muitos contos de réis, iluminado eletricamente, motorista de fardeta, todo o veículo reluzente e orgulhoso. O homem salta. Pára um pouco, olha desconfiado para um lado e para outro, levanta a cabeça para equilibrar o pince-nez no nariz e segue para a escusa entrada do hotel.
Ninguém lhe fala, ninguém lhe pede nada, ninguém o abraça – porque?
Porque não mais aquele ajuntamento, aquele fervedouro de gente de há quatro meses passados?
Se ele sai e põe-se no passeio à espera do seu rico automóvel, fica isolado, sem um admirador ao lado, sem um correligionário, sem um assecla sequer. Porque? Não sabemos, mas talvez o guarda civil pudesse dizer:
– Ele não é mais o nosso homem.
Careta, Rio, 26-6-1915.
HISTÓRIA MACABRA
Logo que soube da morte de meu amigo Florêncio da Costa, tratei de habilitarme a ir ao seu enterro. Florêncio morava no Engenho Novo e o seu enterramento seria feito no cemitério de Inhaúma.
Ajustei bem no corpo a minha melhor roupa preta e segui para a residência do falecido amigo, cheio de compunção.
Dei os pêsames de praxe à família, notei bem a desolação da mulher e saí a alugar na redondeza uma meia-caleça dessas lamentavelmente tristes que acompanham os nossos enterros.
Conhecia mal os subúrbios de modo que não adivinhei os tormentos por que ia passar e também o meu amigo morto.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.