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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Aqui, ali, à derradeira irradiação do sol, uma clarabóia cintilava. Baixando os olhos, viam os quintais com os coradouros coalhados de roupa, cordas vergando, outras atesadas por bambus e, quase por baixo do mirante, o pátio da oficina de carroças, cheio de toros de madeira, rodas em pilhas, um banco de marceneiro sob uma coberta de zinco.

Sons vibrantes de cometas, às vezes de marchas e dobrados, vinham de longe na doçura da tarde. Apareciam estrelas, luzes apontavam nas ruas. A noite caía rápida, e a cidade iluminada resplandecia como uma vasta planície crivada de vaga-lumes.

Recolhiam-se. Só o Toledo ficava muito triste, à noite triste, cantando baixinho, com melancolia, o olhar perdido em cismas. Saíam para os teatros, para a palestra no Garnier ou no Deroche ou ficavam à vontade falando do futuro, formando planos literários — um grande livro de Arte que despertasse a indiferença do público mazorro, uma obra forte, feita com amor e talento, a forma muito trabalhada, a análise muito minuciosa; um livro magistral de estilo que passasse o oceano e fosse ao estrangeiro dizer da Pátria e dos seus artistas.

Ruy Vaz, porém, tinha, por vezes, grandes desalentos: entendia que a língua portuguesa era um cárcere.

— Para que morrer sobre as páginas de um livro se ele nunca chegaria ao conhecimento universal, por mais nobres que fossem os seus conceitos, por mais sutil e arguta que fosse a sua psicologia, por mais que lhe repelissem a forma? Não valia a pena. A língua portuguesa é ingrata e avara: guarda os seus mais belos poemas como um usurário esconde os seus tesouros. Anselmo, porém, sempre a rebuscar nos clássicos novos termos, tinha assomos de entusiasmo e proclamava o seu vernáculo o mais belo, o mais rico, o mais soante. E lia altissonantemente estrofes de Camões, trechos de Bernardes, de Fernão Mendes, de Lucena, os sermões e as cartas de Vieira, apontando as belezas e os grandes recursos dos mestres, e ia assim formando o seu vocabulário.

Só o Toledo, sempre sorumbático, parecia indiferente àquelas pesquisas literárias. Olhava e, se o estudante saltava mostrando nas páginas dum clássico um adjetivo sonoro e expressivo, sorria o seu olhar morno tinha alguma coisa de enternecida piedade, se lhe parecesse ridículo, digno de lástima, contentamento tão grande por tão fútil descoberta. Levantava-se suspirando e, vagaroso, de mãos nas costas, arrastando os passos, ia-se pelo corredor a mascar o cigarro, ou de cabeça baixa, cantarolando trechos de óperas.

Como em todas as venturas da vida há sempre um "mas" impertinente, a adversativa do período sereno dessa existência amável era o banheiro.

A casa não possuía essa dependência indispensável à higiene e ao gozo. Dona Ana esfregava as suas banhas flácidas, de tempos a tempos, em imensa bacia de ferro onde Vidinha, aos sábados, com algumas gotas de água Florida e sabonete Windsor, tirava as gorduras do corpo alambreado.

Leonor, quando começava a tresandar, era impelida para o tanque e a bica golfava grandes jorros sobre as costas da negrinha, que tiritava clamando contra a barbaridade e pedindo que a mandassem para o recolhimento. Logo, porém, que se enxugava, a cólera caía e, satisfeita e inodora por algum tempo, saía a anunciar a barrela com justíssimo enlevo e restos de sabão na carapinha. Só o João se conservava a respeitável distância da água, esbravejando e referindo-se à falecida avó com descabida infâmia quando a mãe investia com a vara para o levar à barrela.

Os rapazes, logo que se instalaram, fizeram uma representação em forma à viúva reclamando um banheiro. Dona Ana achou "muita exigência" e fez-se surda, indo para a cozinha resmungar contra o "luxo dos fidalgos".

Ruy Vaz e Anselmo, vendo que ela desatendia, desceram uma manhã, às dez horas, quando Leonor esfregava no tanque e Vidinha arranjava os vasos de violetas à janela da sala de jantar. Despiram-se atirando a roupa para a corda e, nus, cantarolando, auxiliaram-se mutuamente revezando-se ao regador que um derramava sobre a cabeça do outro, trepando, o que fazia de aquário, sobre uma tina emborcada para que a água jorrasse do alto.

Leonor, em grande pânico, aos gritos, fugiu bradando o escândalo: "Que os moços estavam nus em pêlo, tomando banho no quintal." Vidinha debruçou-se à janela e rompeu a rir. Dona Ana acudiu e, vendo os dois inquilinos como anabatistas que se batizavam, uivou enfurecida contra a pouca vergonha.

Anselmo, porém, com a cabeça branca como um casulo de algodão, o corpo enfocado de espuma, de pé na tina, pronunciou um discurso demonstrando as excelências da água fria para a limpeza do corpo e para a resistência moral dizendo, na peroração, que se ela não desse imediatas providências, todos os dias àquela hora fúlgida, desceriam do Empino com as toalhas e o sabonete e, núcegos como dois atletas gregos, fariam a ablução indispensável.

(continua...)

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