Por Euclides da Cunha (1902)
Fora, além disto, o acontecimento de mau agouro. No dia subseqüente sobreveio maior desastre. Desde muito entrincheirados na fazenda Velha, algumas dezenas de guerrilheiros zombavam dos canhões do coronel Olímpio — que se emparcavam no alto num rebordo da Favela. A dois passos da artilharia e dos contingentes que a reforçavam, tinham durante mais de dois meses tolhido a dilatação do cerco por aquela banda, a despeito da tormenta de disparos que lhes estrugia a cavaleiro. Numa situação dominante sobre o grosso das linhas ajustadas à orla do povoado, enfiavam-nas de ponta a ponta, contribuindo muito para as baixas diárias que as rareavam, e emparelhando-se com as torres no devassar os mais bem escolhidos parapeitos ou abrigos. Mas no dia 7, às dez horas da noite, foram, de improviso, suplantados. Animados pelos sucessos da véspera, aquele coronel, obediente ao que lhe determinara o comando da 1.ª coluna, abalou com uma força composta do 27.º, sob o comando do capitão Tito Escobar, um contingente da 4.ª bateria do 2.° Regimento, um outro do 5.º Regimento e uma boca de fogo. À frente e à retaguarda, seguiam ex-alunos das escolas militares. O coronel Olímpio dispôs o resto da sua pequena força em atiradores pelos dois flancos. Fê-la descer em silêncio os primeiros boléus das vertentes. Arrojou-a, por fim, num rolar de avalanche, pelo morro abaixo. Surpresos, derreando-se ao embute de trezentas baionetas repartidas em duas cargas laterais, tendo de permeio a metralha que os fulminava à queima-roupa, os jagunços mal resistiram, sendo de pronto desalojados das trincheiras de pedra, que ali tinham em torno à vivenda estruída da fazenda Velha.
Durara cinco minutos a refrega.
Os adversários rechaçados, esparsos, perseguidos até ao cerro dos Pelados pela vanguarda, tombaram dali no rio, transpondo-o e embrenhando-se em Canudos.
A força teve apenas duas praças fora de combate.
Expugnada a posição, largo degrau sobre a vertente do morro, entre o Alto do Mário anteriormente ocupado e o Vaza-Barris, aquele coronel armou a sua barraca no lugar onde expirara seis meses antes o chefe da 3.ª expedição. Empregou-se todo o resto da noite em construir, reunindo as próprias pedras das trincheiras do inimigo, forte reduto de cerca de um metro de alto, orlando toda a borda avançada do socalco. E no outro dia, cedo, a "Trincheira Sete de Setembro" sobranceava o arraial. A periferia do sítio aumentara de uns quinhentos metros para a esquerda, na direção do sul, trancando inteiramente os dois quadrantes de leste.
Ora, naquele mesmo dia, à tarde, ela se dilataria ainda mais, inflectindo a partir do ponto conquistado para o poente, até extremar a estrada do Cambaio, perto da confluência do Mucuim, abarcando toda a face do oeste.
ESTRADA DO CALUMBI
Operara-se um movimento mais sério; talvez a ação realmente estratégica da campanha. Ideara-a, planeara-a e executara-a o tenente-coronel Siqueira de Meneses. Esclarecido por informações de alguns vaqueiros leais, aquele oficial viera a saber das vantagens de uma outra estrada, a do Calumbi, ainda desconhecida, que correndo entre as do Rosário e do Cambaio, e mais curta que ambas, facilitava travessia rápida para Monte Santo, onde ia ter em traçado quase retilíneo, seguindo firmemente a linha norte-sul. E propôs-se explorá-la afrontando-se com os maiores riscos.
Realizou a empresa em três dias. Saiu no dia 4 de Canudos, à frente de quinhentos homens, que a tanto montavam, reunidos, os batalhões 22.º, 9.° e 34 .º, sob o imediato comando do major Lídio Porto. Varou pelo novo caminho descoberto, voltando, a 7, pelo do Cambaio, num movimento rápido, ousado, feliz, e de resultados extraordinários para o desenlace da guerra.
De feito, a nova vereda franca à translação das tropas e comboios e fechadas aos jagunços, que a trilhavam de preferência nas suas excursões para o sul, encartava de mais de um dia a jornada para Monte Santo. Era entre todas a mais bem preparada para reagir à invasão. Partia de Juá, onde bifurcava com a do Rosário, derivando à esquerda desta no rumo certo do norte, perlongando por muitos quilômetros o ribeirão das Caraíbas, ou cortando-lhe os meandros intermináveis. Avançava, invariável no rumo, tocando em pequenos sítios, até a um outro riacho de existência efêmera, o Caxomongó. Daí para a frente era uma estrada estratégica incomparável.
Alongando-se na direção de sudeste, a serrania de Calumbi flanqueia-a toda em largo trato, à direita, distante menos de trezentos metros. Um exército atravessando-a daria todo o flanco ao adversário que guarnecesse as encostas. E ao deixar esta situação gravíssima cairia em outra pior, porque o caminho, depois de galgar extensa lombada, se constringe, de repente, em angustura estreita. Nada denuncia o desfiladeiro breve e mascarado pelos esgalhos tortuosos dos pés de umburanas, que se alevantam perto. É uma muralha de mármore silicoso pouco acima do chão, à maneira de barbacã grosseira, aberta ao meio por uma diáclase, rachando-a em postigo estreito. Ali não havia trincheiras. Eram dispensáveis. As espingardas estendidas na crista daquele anteparo natural varreriam colunas sucessivas. E se estas vingassem transpô-lo, o que pressupunha rara felicidade contra antagonistas de tal modo abrigados e batendo-as a salvo, tombariam surpreendidas, logo aos primeiros passos, em terreno impraticável quase.
Um fato geológico vulgar nos sertões do Norte substituía, em seguida, estes acidentes, no criar idênticos empecilhos. Assim, transposta a passagem, o solo descai para o sítio da Várzea, aparentando travessia fácil mas realmente dificílima para uma tropa nas agitações do combate. Larga camada calcária derrama-se por ali, aspérrima, patenteando notável fenômeno de decomposição atmosférica.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.