Por Bernardo Guimarães (1869)
Entretanto em seu obscuro esconderijo Gonçalo não podia estar muito tranqüilo. A justiça de Goiás ativava diligências sobre diligências para descobri-lo. As milícias e esbirros passaram algumas vezes por perto do pobre rancho do caboclo sem a mais leve suspeita de que ali se achava aquele que com tanto afã procuravam por toda a parte, e muitas vezes Gonçalo em seu leito de dores tinha de escutar as ameaças, pragas e maldições com que aqueles homens o acabrunhavam. O matreiro caboclo os acompanhava na ladainha das imprecações, dando a todos os diabos o nome de Gonçalo, a quem mimoseava com os mais horripilantes epítetos, chamando-o de Satanás, tigre, canguçu, etc.
Outras vezes dando falsas informações e indícios por ele mesmo excogitados iludia e desorientava completamente as diligências.
Por sua parte também as inumeráveis vítimas das valentias de Gonçalo, que lhe guardavam secreto rancor, e os amigos de Reinaldo, que os tinha muitos e dedicados, desejosos de vingá-lo, procuravam Gonçalo por toda a parte e faziam altas diligências para descobri-lo, dispostos a fazer pronta justiça por suas próprias mãos.
A vida de Gonçalo andava pois pendente de um fio.
Ele portanto, que avisado pelas próprias patrulhas que o procuravam, não ignorava estas circunstâncias, logo que se sentiu com algumas forças e em estado de poder montar a cavalo, depois de ter agradecido e remunerado generosamente os serviços do bom caboclo, desapareceu, e dirigindo-se para os sertões do norte, embrenhou-se pelas matas que demoram entre a Serra Geral e o rio Tocantins.
Sozinho naqueles ermos sem recurso, vivendo de frutos silvestres, de mel e de caça mal assada e sem adubo algum, pedindo raras vezes furtivamente agasalho em alguma pobre choupana, sofrendo trabalhos e privações, a que só sua robusta compleição podia resistir, foi-se entranhando de mais em mais pelos sertões, procurando fugir para bem longe de uma terra que se lhe tornara odiosa, e cuja lembrança lhe oprimia o coração como um pesadelo. Com as mãos manchadas no sangue de um amigo, a quem perfidamente assassinara, com a alma atassalhada de remorsos e em um sombrio desespero, vagava a esmo pelos desertos esperando morrer às garras de alguma fera ou entre as mãos dos gentios, se não sucumbisse à mortal tristeza que por dentro o corroía.
Assim vagou por muito tempo até que chegou às margens do Tocantins, onde sendo bem acolhido entre uma tribo de índios Coroados, foram-se com o tempo acalmando as angústias que o flagelavam, viveu largo tempo entre eles, adotou os seus costumes, aprendeu a sua língua, e já por sua inteligência, já por sua grande força e destreza no manejo de armas de qualquer espécie, gozou de grande respeito e prestígio entre eles.
Decidido a romper completamente com a sociedade dos homens
civilizados, Gonçalo pôs-se ao serviço daquela nação. Por mais de uma vez foi-lhe dado o comando de expedições destinadas a debelar tribos inimigas, ou a fazer frente às bandeiras encarregadas de submeter ou exterminar os índios, e sempre voltava vitorioso e carregado de despojos.
Mas a inveja e a rivalidade de alguns dos principais da tribo, que viam com maus olhos o ascendente que esse estrangeiro ia tomando sobre o chefe e sobre a nação inteira, foram tornando por fim difícil e espinhosa a situação de Gonçalo. De caráter assomado e altivo, ele teve mais de uma vez de dar a alguns dos índios as terríveis lições que costumava dar outrora em Goiás a seus compatriotas. Demais, os Coroados começavam a entreter relações de amizade e de comércio com os goianos. Algumas hordas destes selvagens já começavam a ir a Goiás vender esteiras, peles, guaraná e outros objetos e comprar armas, ferramentas, fazenda e quinquilharias. Estas comunicações com seus patrícios não convinham por maneira nenhuma a Gonçalo, que com razão receava que por um acaso ou por uma traição de seus rivais da tribo fosse conhecida em Goiás a sua existência entre aqueles indígenas. Portanto resolveu-se a abandonar para sempre os Coroados, e ir procurar refúgio em mais desertos e longínquos países. Ele bem sabia que ia arrostar perigos e azares ainda maiores, e que daí em diante só encontraria feras e gentios indomáveis; mas antes quereria morrer entre as garras de um tigre ou trespassado pelas flechas dos selvagens, do que voltar a Goiás ainda mesmo de seu moto próprio, quanto mais preso e entregue à justiça.
Em uma noite pois, metido em uma canoa, em que embarcou suas armas e as provisões que pôde, deixou furtivamente o arraial dos Coroados, e abandonou seu destino à mercê da torrente do Tocantins. Assim foi descendo através de mil dificuldades e perigos, que superava à força de audácia, destreza e astúcia, em luta já com as cachoeiras do rio, já com as hordas selvagens de ambas as margens, já com a fome e privações de toda a sorte, até que chegou ao lugar onde, depois de obstinada resistência, o vimos cair como morto em poder dos Chavantes.
CAPÍTULO III
A ENFERMEIRA
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.