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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

Devo confessar que não sei se a carta a que respondo é de Vossa Excelência. A sua letra, de que eu já vi uma amostra no álbum de D. Adelaide, não se parece com a da carta; está evidentemente disfarçada; é de qualquer mão. Demais, não traz assinatura. 

Digo isto porque a primeira dúvida que nasceu em meu espírito proveio do portador escolhido. Pois quê? Vossa Excelência não achou outro senão o próprio Diogo? Confesso que de tudo o que tenho visto em minha vida, é isto o que mais me faz rir. 

Mas eu não devo rir, minha senhora. Vossa Excelência abriu-me o seu coração de um modo que inspira antes compaixão. Esta compaixão não lhe é desairosa, porque não vem por sentido irônico. É pura e sincera. Sinto não poder dar-lhe essa felicidade que me pede; mas é assim. 

Não devo estender-me, contudo custa-me arrancar a pena de cima do papel. É que poucos terão a posição que eu ocupo agora, a posição de requestado. Mas devo acabar e acabo aqui, mandando-lhe os meus pêsames e rogando a Deus para que encontre um coração menos frio que o meu. 

A letra vai disfarçada como a sua, e, como na sua carta, deixo a assinatura em branco.”

Esta carta foi entregue à viúva na mesma tarde. À noite, Azevedo e Adelaide foram visitá-la. Não puderam dissuadi-la da idéia da viagem para a Corte. Emília usou mesmo de uma certa reserva para com Adelaide, que não pôde descobrir os motivos de semelhante procedimento, e retirou-se um tanto triste. 

No dia seguinte, com efeito, Emília e a tia aprontaram-se e saíram para voltar para a corte.

Diogo ficou em Petrópolis ainda, cuidando em aprontar as malas... Não queria, dizia ele, que o público, vendo-o partir em companhia das duas senhoras, supusesse coisas desairosas à viúva. 

Todos estes passos admiravam Adelaide, que, como disse, via na insistência de Emília e nos seus modos reservados um segredo que não compreendia. Quereria ela por aquele meio de viagem atrair Tito? Nesse caso era cálculo errado; visto que o rapaz, naquele dia como nos outros, acordou tarde e almoçou alegremente. 

- Sabe, disse Adelaide, que a esta hora deve ter partido para a cidade nossa amiga Emília? 

- Já tinha ouvido dizer. 

- Por que será? 

- Ah! isso é que eu não sei. Altos segredos do espírito de mulher! Por que sopra hoje a brisa deste lado e não daquele? Interessa-me tanto saber uma coisa como outra. 

No fim do almoço Tito, como quase sempre, retirou-se para ler durante duas horas. 

Adelaide ia dar algumas ordens quando viu com pasmo entrar-lhe em casa a viúva, acompanhada de um criado. 

- Ah! não partiste! disse Adelaide correndo a abraçá-la. 

- Não me vês aqui? 

O criado saiu a um sinal de Emília. 

- Mas que há? perguntou a mulher de Azevedo, vendo os modos estranhos da viúva. 

- Que há? disse esta. Há o que não prevíamos... És quase minha irmã... posso falar francamente. Ninguém nos ouve? 

- Ernesto está fora e o Tito lá em cima. Mas que ar é esse? - Adelaide! disse Emília com os olhos rasos de lágrimas, eu o amo! - Que me dizes?

- Isto mesmo. Amo-o doudamente, perdidamente, completamente. Procurei até agora vencer esta paixão, mas não pude; e quando, por vãos preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu coração, não pude, as palavras saíram-me dos lábios insensivelmente... 

- Mas como se deu isto? 

- Eu sei! Parece que foi castigo; quis fazer fogo e queimei-me nas mesmas chamas. Ah! não é de hoje que me sinto assim. Desde que os seus desdéns em nada cederam, comecei a sentir não sei o quê; ao princípio despeito, depois um desejo de triunfar, depois uma ambição de ceder tudo, contanto que tudo ganhasse; afinal não fui senhora de mim. Era eu quem me sentia doudamente apaixonada e lho manifestava, por gestos, por palavras, por tudo; e mais crescia nele a indiferença, mais crescia o amor em mim. 

- Mas estás falando sério? 

- Olha antes para mim. 

- Quem pensara?... 

- A mim própria parece impossível; porém é mais que verdade... - E ele?... 

- Ele disse-me quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se. - Resistirá? 

- Não sei. 

- Se eu adivinhara isto não te insinuaria naquela malfadada idéia. 

- Não me compreendeste. Cuidas que eu deploro o que acontece? Oh! não! Sinto-me feliz, sinto-me orgulhosa... É um destes amores que brotam por si para encher a alma de satisfação: devo antes abençoar-te... 

- É uma verdadeira paixão... Mas acreditas impossível a conversão dele? 

- Não sei; mas seja ou não impossível, não é a conversão que eu peço; basta me que seja menos indiferente e mais compassivo. 

- Mas que pretendes fazer? perguntou Adelaide sentindo que as lágrimas também lhe rebentavam dos olhos. 

Houve alguns instantes de silêncio.

(continua...)

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