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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

VIOLANTE – Não entendo.

BRAZ – Naturalmente: et coetera é grego; mas tem sua eloqüência nestes casos.

VIOLANTE – Eu não pensava nestas coisas; tu me expusestes ao fogo... criaste a hipótese... fizeste-me desejar a realidade, oferencendo-ma ou mostrando-ma de perto!... Braz, a gente não é de ferro...

BRAZ – Ah, madrinha! a serpente não pensou que houvesse tentação para a Eva de sessenta e dois anos! sou o maior tolo do Brasil!

VIOLANTE – Reprovas também?...

BRAZ – Não digo isso... mas reflita por algumas semanas antes de se decidir... madrinha... a sua idade...

VIOLANTE – Não vem ao caso; com os anos que tenho, achei de uma vez três pretendentes à minha mão; parte deste princípio e raciocina.

BRAZ – Partindo desse princípio, não há que raciocinar: é casar et coetera.

VIOLANTE – Pretendes meter-me à bulha?

BRAZ – Qual! tenho visto disparates maiores; exemplo: o do... o da... o de... não acho agora exemplo; mas sem dúvida haverá muitos; a madrinha quer casar? aprovo; conte comigo em tudo, por tudo e para tudo.

VIOLANTE – Eu contava tanto com os teus epigramas como com a tua dedicação. Agora quero de ti um favor: preciso que até amanhã à noite, me tragas informações miúdas e completas sobre os meus três pretendentes.

BRAZ – Honradíssimos e desinteressadíssimos jovens: iguaizinhos todos três.

VIOLANTE – A tua voz tem um tom de ironia...

BRAZ – Não, senhora; apenas falei em grifo, como diz certo amigo; vá descansar, madrinha; amanhã lhe trarei o relatório das virtudes e das hipotéticas fraquezas daqueles três primores... serei leal, como sempre; vá descansar.

VIOLANTE – Sim, e preciso bem; desde ontem que não durmo... sinto uns abalos no coração...

BRAZ – Vá dormir sossegada; o seu casamento se fará et coetera... et coetera. VIOLANTE – Tu és trigo sem joio. (Vai-se)

CENA V

BRAZ e CLEMÊNCIA

BRAZ (Acena para dentro chamando) – Psiu! psiu!

CLEMÊNCIA (Dando-lhe a mão) – Como passou?

BRAZ – Melhor do que merecia; falemos com algum cuidado... (Observando) CLEMÊNCIA – Que há?

BRAZ – Virei de bordo e venho bater bandeiras; abandonei o partido da madrinha e passo-me para o seu; não se admire, porque isto é trivial.

CLEMÊNCIA – Na minha questão com a titia dispenso absolutamente o seu apoio.

BRAZ – Dê forte, que bem o mereço; mas o caso tornou-se grave; na sua família manifestou-se a loucura contagiosa; é para fazer medo! não me espantaria se hoje ou amanhã a senhora se dirigisse à minha casa para pedir-me em casamento.

CLEMÊNCIA – Tranqüilize-se.

BRAZ – Não posso, porque esse é o caráter da epidemia; escute, guarde segredo e auxilie-me em seu próprio interesse; seu pai incumbiu-me de pedir para ele a menina Irene em casamento.

CLEMÊNCIA – É possível?!!! vou contar a Mário.

BRAZ – Deitaria tudo a perder.

CLEMÊNCIA – Meu pai então está doido?

BRAZ – Se a moléstia é reinante!

CLEMÊNCIA – Tem razão... gosto de Irene; mas se meu pai ma desse por madrasta... sim... era caso de correr a sua casa a pedi-lo em casamento... é demais!

BRAZ - Não se encolerize; ouça o que mais me ataranta: a madrinha, que instigada por mim fizera a famosa aposta com o único fim de castigar um pouco a sua vaidade, e de ensiná-la a conhecer a torpeza de certos homens, tomou gosto ao brinquedo e quer deveras casar-se.

CLEMÊNCIA – O senhor está gracejando.

BRAZ – O que eu estou é em brasas.

CLEMÊNCIA – Não... a titia diverte-se com os três ambiciosos, e dá-me boa lição...

BRAZ – Falo-lhe como amigo, e membro adotivo da sua família...

CLEMÊNCIA – Mas a titia quer fazer mal a todos nós, expondo-se a muito maior mal?... isso me aflige realmente.

BRAZ – Eis aí pois dois casos de loucura; sou, por felicidade, o confidente da madrinha, e o corretor da negociação casamenteira de Casimiro, mas preciso de auxiliares.

CLEMÊNCIA – Que posso eu fazer?

BRAZ – Muito, conforme as circunstâncias; na questão paterna há de facilitarme hoje mesmo uma conferência com Irene; mas nem de leve indiciará que a não quer por madrasta.

CLEMÊNCIA – Convém prevenir...

BRAZ – Deseja mais um doido na história? a senhora é homeopata, espera curar pelos semelhantes.

CLEMÊNCIA – Farei o que me ordenar.

BRAZ – Quanto à madrinha, estou ainda a ver navios; velha com esperança de casamento é mais teimosa que um galo da Índia a brigar; não sei que faça; a senhora, porém, descobriu um recurso, que me pode servir.

CLEMÊNCIA – Qual! estou aniquilada...

BRAZ – Deixe-se de fingimentos; pediu uma dilatação de três dias; para que? preciso saber tudo.

(continua...)

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