Por Gregório de Matos (1696)
9 Vinha amanhecendo já,
quando ele vestido, e armado
diga, disse, a esse barbado,
(se acaso tornar por cá)
que me busque, e me achará
nos desempenhos forçosos,
de cornos tão afrontosos;
sendo, que não deve estar
sentido de eu Ihos plantar,
a um traidor dous aleivosos.
10 Se é Pedro de malas artes,
que com tão sujos modilhos
por comer a dous carrilhos
fala por ambas as partes:
e com tão infames artes
vai recolhendo as maquias
das Partes todos os dias,
saiba, que as come em má fé,
porque bem conhece, que é
letrado de aleivosias.
11 Com isto se foi embora
entendendo a cada passo
que encontrava co madraço,
que o veio esperar cá fora:
e se tão fraco não fora,
assim havia de ser:
mas essa noite é de crer
que estaria em seu beco
ele a engolir em seco,
quando a puta a se foder.
12 Acabado o desgostinho
mandou-o a Puta chamar,
que um corno não é desar,
que a um destes mude o focinho:
veio ela com todo alinho,
ele embravecido, e irado
lhe disse, é bem empregado
depois de eu vender o mundo
pata comprar-lhe esse sundo
tirá-lo por mal comprado.
13 Ela disse-lhe um dichote,
e o tontinho, ou asnaval
abriu a boca sem sal,
e sorriu-se a meio trote:
com um, e outro risote
o pôs ela tão virado,
que ficou logo assentado
por um artigo de paz,
que ela ao outro machacaz
lhe mandou este recado.
14 A esse magano dizei,
que eu não sou louca perene
que troque um Doutor Ximene
nem pelo cetro d'El-Rei;
que se uma noite Iho dei,
foi por um certo respeito;
foi-lhe o recado direito
com aviso de antemão,
e dando-se, o asneirão
se deu por mui satisfeito.
A HUM AMIGO PEDINDOLHE HUMA CAIXA DE TABACO.
Senhor: o vosso tabaco
que muito me ensoberbeça,
se uns fumos lança à cabeça
mais divinos, que os de Baco:
e bem, que nunca em meu caco
entra tão rico alimento,
por isso mesmo eu intento
para meu proveito, e pró,
porque me deis desse pó,
mandar-vos este memento.
A CERTO BARQUEIRO DE MARAPÈ PRESUMIDO DE GENTIL, VALENTE, E
NAMORADO, O QUAL TINHA POR GURUMETE DA NAO, EM QUE O POETA VEYO
DE PORTUGAL.
Gentil-homem, valente e namorado
Trindade vem a ser de perfeições,
Com que a vós triunviro dos varões
Vos teme a morte, e vos venera o fado.
Pelo gentil Adônis sois pintado,
Pelo valente o Marte das nações,
Que unir, e conformar contradições
Só em vós se viu já facilitado.
Sobretudo, Senhor Manuel Fernandes,
Podereis ser de Enéias Palinuro
E conduzir de Europa Ulisses grandes:
Pois trazíeis o barco tão seguro,
Quando passei para esta nova Flandes,
Que o mar me parecia vinho puro.
MESMO BARQUEIRO E PELO MESMO CASO.
1 Por gentil-homem vos tendes,
por valente, e namorado,
que a um Fernandes não é dado,
e cai melhor em um Mendes:
e pois as prendas retendes,
que em boa filosofia
nenhuma em vós caberia,
tão grande amor me deveis,
que porque vós o dizeis,
vo-lo creio em cortesia.
2 Só por cerimônia urbana
me resolvera eu a crer,
que podeis formoso ser
tendo olhos de porcelana:
se vo-lo diz vossa mana
(que se a tendes, preta é)
por vos manter nessa fé,
sabei, que vos troca as prosas,
porque são mui mentirosas
as Negras de Marapé.
3 Que sois valente, bem creio,
que esses pulsos, essas pernas,
e o grosso dessas cavernas
me estão dizendo "temei-o":
eu vos creio, e vos recreio,
não faleis mais nisso: tá,
porque em rigor, claro está,
que um valentão D. Ortis
me assusta quando mo diz,
e outra vez, quando me dá.
4 Mas quanto a ser namorado,
nisso consiste a questão,
que esta vez vos vou à mão,
como quem vos vai ao dado:
todo o Americano Estado,
que digo? este mundo inteiro
namorei eu tão primeiro,
que nisto de namorar
podeis vós comigo estar
a soldada de escudeiro.
5 Sou namorado de chapa,
e de idade pueril
de Portugal, e Brasil
tenho namorado o mapa:
nenhuma cara me escapa,
e em todo o rosto me embarco,
e vós no salgado charco
(posto que em vãos pensamentos)
sempre andais bebendo os ventos,
que é bom para o vosso barco.
CELEBRA A CARREYRA QUE DEO HUM CABOCLO A HUM SUGEYTO, QUE ACHOU
COM HUMA NEGRINHA ANGOLLA, COM QUEM ELLE FALAVA.
1 Arre lá co Aricobé,
como ele é corredor,
porque fiz co pecador,
o que já com São Tomé:
o pobre teve bom pé,
e esta parte não é má,
pois se ao chinelo não dá,
e no fugir não insiste,
creio, que diria o triste,
se isto assim é, arre lá.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.