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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

A pequena península onde está Galípoli, que domina a entrada dos Dardanelos, pode ser, em poucos dias, convertida num campo entrincheirado, inacessível por terra, inexpugnável por mar, onde a Inglaterra se poderia estabelecer – e, senhora daquela posição formidável, ditar as suas condições, se se tratasse de paz, ou preparar os seus movimentos, se se tratasse de guerra.

Isto, porém, não parece tão fácil. Com que carácter vai a Inglaterra estabelecer-se em Galípoli? Como aliada da Turquia? Mas então tem de o manifestar claramente, por algum acto público de aliança, e por este facto lança-se isolada em uma guerra contra a Rússia, sem estar de modo nenhum preparada militarmente para esta eventualidade temerária. Vai simplesmente a Galípoli como neutral? Mas consentirão os Turcos que uma nação neutral se estabeleça com armas e bagagens no seu território? Não é natural; os Turcos estão extremamente despeitados com a Inglaterra e com a sua atitude indiferente; sempre acreditaram que a

Inglaterra, declarada a guerra, os ajudaria e seguiria, sem hesitar, a sua política tradicional. Consideram-se logrados; e não é presumível que lhe permitissem um desembarque em Galípoli sem que a Inglaterra lhes prometesse uma aliança decidida: haveria, com efeito, alguma coisa de monstruoso, da parte da Inglaterra, em ocupas Galípoli pelos seus próprios interesses, sem se dignar ajudar o dono do território quando ele está em perigo. Os Turcos nunca consentiriam nesta humilhação; resistiriam e, como não duvidam de nada, fariam fogo sobre o primeiro navio inglês que se aproximasse de Galípoli, com tanta mais vontade quanto maior é o despeito que lhes causa a neutralidade inglesa. Portanto, a Inglaterra só pode ir a Galípoli – ou como aliada ou como inimiga do Turco. No primeiro caso, provoca uma guerra gratuita, sem estar preparada para tal; no segundo, tem de ajudar à destruição do Império Turco, renegando a sua política e combatendo os seus próprios interesses.

Leio em muitos jornais e ouço muitos políticos dizerem que a ocupação de Galípoli é um acto de profunda política; que os Turcos serão fatalmente batidos e que a Bulgária e a Bósnia deverão ser arrancadas ao domínio turco; que, assim, os Turcos serão zero na Europa, e o território que lhes for deixado, cercado por todos os lados de inimigos, oferecendo poucas condições de defesa e enormes facilidades de ataque, será inteiramente impotente para formar uma barreira séria em torno de Constantinopla; que Constantinopla ficará assim à mercê da menor invasão e que, portanto, os Dardanelos, o mar da Mármara e o mar Negro não terão quem os defenda, porque o Turco na Europa não será mais que uma sombra! Portanto, dizem, logo que a Inglaterra esteja estabelecida em Galípoli ela fará as vezes do Turco, e guardará a passagem dos Dardanelos.

Tudo isto é muito engenhoso; mas, pergunto, para quem guardará ela os Dardanelos? Se não for para si somente, de que lhe serve guardá-los e defendê-los? E se for para si somente então declara a guerra ao mundo inteiro. Se a Inglaterra pode fazer passar os Dardanelos aos seus navios de guerra, é claro que os tratados que fecharam os estreitos estão despedaçados e que, portanto, todas as nações têm direito de os usar. Suponhamos que uma fragata alemã ou francesa se apresenta para passar os Dardanelos: que fará a Inglaterra? Fazer-lhe fogo? Então é a guerra contra a Europa e a América. Permitir a passagem? Mas então com que fins se estabelece como guarda dos estreitos? Se todo o mundo pode passar, é inútil que alguém os guarde. Isto parece-me lógico.

A expedição, portanto, a Galípoli parece-me cercada de tantas dificuldades e semente de tantas complicações que realmente não creio que o Governo a decida tão facilmente.

A remessa de tropas é apenas, a meu ver, um destes movimentos que às vezes faz um homem para mostrar que não dorme, que está alerta e que não será prudente meter-lhe a mão na algibeira. E a prova é que ontem o Governo, interpelado sobre se levantaria créditos suplementares para fazer face à expedição de tropas, declarou que não: que Malta e Gibraltar se achavam agora devidamente defendidas, e que, este ano, não se tornaria a falas em remessa de gente, nem havia ocasião de pedir, pelo Ministério da Guerra, fundos excepcionais. No entanto, com esta terrível questão do Oriente, a gente nunca está sossegada e, quando menos espera, no terreno mais seguro abre-se uma fenda, e de trás da parede mais inofensiva sai uma descarga.

(continua...)

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