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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Ele olhava a fímbria do seu vestido, ou segurava os seus dedos delicados, que arrancavam uma a uma as folhas dos malmequeres. Por vezes ele colhia um ramo; ou apanhando o livro dela, que caíra a seus pés, voltava as folhas; ela debruçava-se, e os fios soltos dos seus cabelos roçavam os ombros de Alfredo; e muitas vezes assim se esqueciam, com os olhos postos na mesma página que não voltavam, corados, com o peito a arfar.

Mas um dia que ambos passeavam longe, ao fundo dos pinheirais, com os ombros juntos, Cristóvão ousou tocar o livro, esquecido sobre uma pedra, e com os seus grossos dedos voltar as folhas. Eram linhas negras que não compreendia; mas uma emoção tomou-o diante das imagens cheias de cor. Parecia ser uma história – e começava por uma criancinha, que num curral, entre uma vaca e uma jumenta, sorria, toucada de estrelas, nos joelhos de uma mulher pálida. Depois a mesma criança, já maior, e sempre coroada de estrelas, falava diante de um grupo de velhos barbudos, que espalmavam as mãos com espanto. Quem era esse, pois, que, tão novo, assombrava a velhice sapiente? Mais longe os dedos de Cristóvão, virando as folhas duras, encontravam o mesmo ser, que ele reconhecia por seu aro de estrelas, já homem, envolto numa túnica, passeando à beira de um lago: e não cessava mais de aparecer, pondo a suas mãos sobre os entrevados, estendendo os braços para as crianças, desatando as ligaduras dos mortos, consolando as multidões. Montado num burro, penetrava as portas de uma cidade, entre o povo que o aclamava movendo folhas de palma; sentado sob um sicômoro, ouvia duas mulheres, que fiavam a seus pés; de joelhos, entre oliveiras, orava sobre um monte; preso em meio de soldados, com tochas, comparecia ante um juiz que erguia o dedo, pensando.

E Cristóvão sentia uma ansiedade de compreender, quando viu diante de si os dois noivos com os braços enlaçados, que sorriam. Surpreendido, Cristóvão fechou o livro. E como Etelvina, vendo a sua larga face perturbado e cheia de piedade, lhe perguntava se ele amava o Senhor, Cristóvão moveu a cabeça, sem compreender. Pois que? ele não conhecia o Senhor e não amava a sua doçura? Tão grande escuridão naquela alma encheu-a de piedade: e um escrúpulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto ela se ocupava de amar, alguém, ao pé dela, vivia sem conhecer o Senhor. E então, para que bem merecessem Jesus, e para recompensar a proteção de Cristóvão, ela pediu a Alfredo que lessem o santo livro àquele homem simples, que o ignorava.

Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. Já as árvores se desfolhavam; mais tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o céu. Para ouvir melhor, Cristóvão sentara-se sobre um alto monte de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepava ao seu vasto joelho – e Etelvina sentou-se no outro joelho, tão simplesmente como se fora um rocha ou um cômoro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os de um anjo: as suas mãos pousavam castamente no regaço. Defronte. Alfredo abrira o livro: - e com a vasta face de Cristóvão entre eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e duros de uma enorme estátua de pedra.

E toda a tarde, no silêncio do arvoredo. Alfredo leu a vida do Senhor. Disse a estrela brilhando sobre o seu berço, e os pastores de longe vindos para ele, misturados aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros chegavam com alfanjes: e o Menino sorria adormecido no colo da mãe, enquanto a burrinha, toque, toque, os levava para o Egito. Lá repousavam sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do deserto: e o menino, rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um ramo de açucena. Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse a ler o Menino: seu pai sorria por trás na sua grande barba: S. Joãozinho, ao lado, escutava com a mãozinha apoiada à face; e dois anjos no alto erguem a mão, param os ventos, para que nenhum ruído perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino aprendeu, porque eis que os velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do seu saber...

Cansado de ler, Alfredo parava, com o dedo entre as folhas do livro. E na face simples de Cristóvão havia tanto espanto, como nas dos doutores: o seu grosso lábio tremia. E murmurou humildemente, e já cheio de amor:

— Mas que fez o Menino?



(continua...)

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