Por Eça de Queirós (1875)
As amigas da S. Joaneira - as íntimas - a D. Maria da Assunção, as Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa dela para se porem ao fato... Eram nove horas, Amaro saíra com o cônego. A S. Joaneira, radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas arregaçadas, nos arranjos da manhã; e imediatamente, com animação, contou a chegada do pároco, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
- Mas venham vocês cá abaixo, sempre quero que vejam.
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o baú de lata, uma prateleira que lhe arranjara para os livros.
- Está muito bem, está muito bem, diziam as velhas andando pelo quarto, devagar, com respeito, como numa igreja.
- Rico capote! - observou D. Joaquina Gansoso, apalpando o pano das largas bandas que pendiam ao comprido do cabide. - É obra para um par de moedas!
- E a boa roupa branca! disse a S. Joaneira, erguendo a tampa do baú.
O grupo das velhas curvou-se com admiração.
- A mim o que me consola é que ele seja um rapaz novo, disse D. Maria da Assunção, piedosamente.
- Também a mim, disse com autoridade a D. Joaquina Gansoso.
Estar a gente a confessar-se e a ver o pingo do rapé, como era com o Raposo, credo! até se perde a devoção! E o bruto do José Miguéis! Não, lá isso Deus me mate com gente nova!
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do pároco, - um crucifixo que estava ainda embrulhado num jornal velho, o álbum de retratos, onde o primeiro cartão era uma fotografia do Papa abençoando a cristandade. Todas se extasiaram.
- É o mais que se pode, diziam, é o mais que se pode!
Ao sair, beijando muito a S. Joaneira, felicitaram-na porque adquirira, hospedando o pároco, uma autoridade quase eclesiástica.
- Vocês apareçam à noite, disse ela do alto da escada.
- Pudera!... gritou D. Maria da Assunção, já à porta da rua, traçando o seu mantelete. - Pudera!... Para o vermos à vontade!
Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais ativo de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:
- Ó S. Joaneira!
- Sobe, Libaninho, sobe, disse ela, que costurava à janela.
- Então o senhor pároco veio, hem? perguntou o Libaninho, mostrando à porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cor de limão, a calva luzidia; e vindo para ela com o passinho miúdo, um gingar de quadris:
- Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
- Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota. -. Mas não se podia demorar, ia para a repartição! -. Adeus, filhinha, adeus! - E batia com a sua mão papuda no ombro da S. Joaneira. - Estás cada vez mais gordinha! Olha que rezei ontem a Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
- Adeus, Ruça! Estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãe dos Homens. - E avistando Amélia pela porta do quarto entreaberta: - Ai, que estás mesmo uma flor, Melinha! Quem se salvava na tua graça bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo:
- Adeusinho, adeusinho, pequenas!
- Ó Libaninho, vens à noite?
- Ai, não posso, filha, não posso. - E a sua vozinha era quase chorosa. - Olha que amanhã é Santa Bárbara: tem seis Padre-Nossos de direito!
•••
Amaro fora visitar o chantre com o cônego Dias, e tinha-lhe entregado uma carta de recomendação do Sr. conde de Ribamar.
- Conheci muito o Sr, conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso: há que anos isso vai!
E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, falou com satisfação do seu tempo; contou anedotas da Junta, apreciou os homens de então, imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excelência), os tiques, as caturrices, - sobretudo Manuel Passos, que ele descrevia passeando na Praça Nova, com o comprido casaco pardo e o chapéu de grandes abas, dizendo:
- Ânimo patriotas! o Xavier agüenta-se!
Os senhores eclesiásticos da câmara riram com gozo. Houve uma grande cordialidade. Amaro saiu muito lisonjeado.
Depois jantou em casa do cônego Dias, e foram passear ambos pela estrada de Marrazes. Uma luz doce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga tranqüilidade; fumos esbranquiçados saíam dos casais, e sentiam-se os chocalhos melancólicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da Ponte, e disse, olhando em redor a paisagem suave:
- Pois senhores, parece-me que me hei-de dar bem aqui!
- Há-de-se dar regaladamente, afirmou o cônego, sorvendo o seu rapé.
Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joaneira.
As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candeeiro de petróleo, Amélia costurava,
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.