Por Eça de Queirós (1900)
Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal-da-cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau-preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei D~ Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Ele resistia, fincado nas lajes, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e de armas. E imediatamente seu primo de Espanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!... Por fim, moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro repelão aos lençóis, saltou ao soalho, abriu a vidraça - e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que sede! uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios! Recordou então o famoso fruit salt que lhe recomendara o Dr. Matos, arrebatou o frasco, correu à sala de jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas num copo d'água da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.
- Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia, inquieto com "aquele tardar do Sr. Doutor".
- É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram osmalditos ovos com chouriço; e o pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéia daquele animal do Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou otimíssimo!
Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de chá verde, muito forte... Leva também torradas.
E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanela sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá, Gonçalo relia junto da varanda essa derradeira linha da Novela, tão rabiscada e mole, em que "os largos raios da lua se estiravam pela larga sala de armas..." De repente, numa rasgada impressão de claridade, entreviu detalhes expressivos para aquela noite de Castelo e deverão - as pontas das lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha, e o coaxar triste das rãs nas bordas lodosas dos fossos...
- Bons traços!
Achegou devagar a cadeira, consultou ainda no volume do Bardo o Poemeto do tio Duarte. E, desanuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres surgirem como bolhas duma água represa que rebenta, atacou esse lance do Capítulo 1 em que o velho Tructesindo Ramires, na sala de armas de Santa Irenéia, conversava com seu filho Lourenço e seu primo D. Garcia Viegas, o Sabedor,; de aprestos de guerra... Guerra! Por quê? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o arvoredo, almogávares mouros? Não! Mas desgraçadamente, "naquela terra já remida e cristã, em breve se cruzariam, umas contra outras, nobres lanças portuguesas!..."
Louvado Deus! a pena desemperrara! E, atento às páginas marcadas num tomo da História de Herculano, esboçou com segurança a Época da sua Novela - que abria entre as discórdias de Afonso II e de seus irmãos por causa do testamento de El-Rei seu pai, D. Sancho I. Nesse começo do Capítulo já os infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam por França e Leão. Já com eles abandonara o Reino o forte primo dos Ramires, Gonçalo Mendes de Sousa, chefe magnífico da casa dos Sousas. E agora, encerradas nos castelos de Montemor e de Esgueira, as senhoras infantas, D. Teresa e D. Sancha, negavam a D. Afonso o senhorio real sobre as vilas, fortalezas, herdades e mosteiros, que tão copiosamente lhes doara El-Rei seu pai. Ora, antes de morrer no Alcáçar de Coimbra, o Senhor D. Sancho suplicara a Tructesindo Mendes Ramires, seu colaço e Alferes-Mor, por ele armado Cavaleiro em Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada entre todas, a Infanta D. Sancha, senhora de Aveiras. Assim o jurara o leal Rico-Homem junto do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do Hospital sustentando a candeia, agonizava, vestido de burel como um penitente, o vencedor de Silves... Mas eis que rompe a fera contenda entre Afonso II, asperamente cioso da sua autoridade de Rei - e as Infantas, orgulhosas, impelidas à resistência pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem D. Sancho legara tão vastos pedaços do Reino! Imediatamente Alenquere os arredores doutros castelos são devastados pela hoste real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. Teresa apelam para El-Rei de Leão, que entra com seu filho D. Fernando por terras de Portugal a socorrer as donas oprimidas". - E neste lance o tio Duarte, no seu Castelo de Santa Irenéia, interpelava com soberbo garbo o AlferesMor de Sancho I.
Que farás tu, mais velho dos Ramires? Se ao pendão leonês juntas o teu Trais o preito que deves ao Rei vivo! Mas se as Infantas deixas indefesas Trais ajura que destes ao Rei morto!...
Esta dúvida, porém, não angustiara a alma desse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rija-mente modelava. Nessa noite, apenas recebera pelo irmão do Alcaide de Aveiras, disfarçado em beguino, um aflito recado da senhora D. Sancha - ordenava a seu filho Lourenço que, ao primeiro arrebol, com quinze lanças, cinqüenta homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros, corresse sobre Montemor. Ele no entanto daria alarido - e em dois dias entraria a campo com os parentes de solar, um troço mais rijo de Cavaleiros acontiados e de frecheiros, para se juntar a seu primo, o Sousão, que na vanguarda dos leoneses descia de Alva-do-Douro.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.