Por Camilo Castelo Branco (1864)
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade que endoida e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração.
Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas áridas, frias e falsas, que inventam a natureza, depois que desbaratam a sensibilidade, exagerando as generosas comoções que receberam dela.
Teodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ela o queria falsificado no molde dos romances que a menina transmontana lhe emprestara; mas, ainda assim, aceitou com paciência a linguagem desartificiosa daquela ingénua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleutério Romão dos Santos falou assim:
- Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilário quisera leccioná-lo em Sagrada Escritura: falou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de três silabas, deve supor-se que também em matéria de história preferia os indivíduos de duas aos de três sílabas.)
E continuou:
- Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Teodora...
Nisto como lhe não ocorresse ideia nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão à testa e roçou a epiderme com o aro de um robusto anel que trazia no dedo indicador. Ideia magnífica! Tirou o anel e lançou-o ao regaço de Teodora. Tinha o anel um grosso topázio, engastado num circulo de pérolas- Teodora examinou o objecto e, enganada pela circunferência do aro, esteve quase a pensar que era uma pulseira.
- Faz favor de encaixar no dedo, prima - disse Eleutério.
- Não me serve - disse a menina,
- E que está magrinha das mãos... - replicou o moço. - Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima há-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueiroa rodeavam o primo Afonso de agrados, de gozos familiares e recreios, tendendo tudo a diverti-lo de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em matéria de estudos e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ela houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Afonso. Bailes e teatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir afrontar-se com centenas de mulheres, entre as quais nem sequer em sombra se lhe oferecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Teodora. O pudor dos dezassete anos, a índole nada comunicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprara-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavalo. Afonso recebeu a dádiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limítrofes de Lisboa.
O local mais atractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Belas. Desde o reinado de el-rei D. Manuel que as gigantes árvores daquela majestosa anciã estavam frondeando, e asilando as gerações de aves, como para alegrarem com suas músicas, e agasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por ali as horas lhe corriam plácidas, contentes nunca, bem que a tristeza de entre os arvoredos, ao murmuroso cair de água em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donairosas verduras da vida.
De cada vez que Afonso ia à quinta predilecta, em cada árvore nova entalhava as letras inicias dos dois nomes, que ele imaginava, apesar da distância e dos reveses, atados para sempre com aplauso de Deus. Este pagão de amor e por amor, à imitação de todos os amadores visionários, cuidava que a divindade se intromete nestas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta e lá se atira em como, deixando cá fora a alma infernada na desonra e na execração. E querem os pobrezinhos, com o peito aberto ao abutre de suas quimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!
E Afonso, escondido nas sombras escuras de Belas, chorava por Teodora e, alteando o rosto ao Céu, pedia ao Senhor que lhe visse as lágrimas e houvesse piedade delas.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.