Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Dona Ana dirigia a casa ajudada pela filha: Vidinha, morena de dezessete anos, de olhos negros amendoados, cabelos fartos, sempre soltos, rolando pelos ombros até ao colo muito rijo, e pelas costas, chegando à cinta delgada; era a alegria da casa.

O Lins dava-lhe a alcunha expressiva de Míle. Cotovia, porque eram as suas gargalhadas que despertavam os rapazes.

Leonor, negrinha esgalgada, espevitada e zarelha, de colo murcho; órfã, trazida de um recolhimento e João, o filho mais novo da viúva, rapazelho sardento, muito obsceno de linguagem, que trazia a casa em constante alvoroço respondendo à mãe com insultos, atirando-se à irmã às dentadas, numa ferocidade canina, perseguindo a negrinha indecorosamente.

Às vezes traziam-no à casa ensangüentado e imundo das brigas que tivera na rua. Andava sempre armado com um velho canivete que escondia no papo da camisa e descalço, cigarro nos beiços, abalava em farândolas para as praças, para os morros, numa vida devassa e vadia.

Se a mãe o prendia ficava a fazer exercícios de capoeiragem no corredor, cantando dobrados, a gingar, como fazia à frente dos batalhões, com uma gíria sórdida e gestos desempenados. A velha, entanto, trazia a casa asseada. Ela própria, descalça, com as saias arregaçadas, os braços nus, esfregava o soalho; a negrinha, trepada em uma escada, lavava as vidraças. Vidinha cuidava da louça e trabalhava com disposição, contanto que, à tarde, à hora em que tirava os papelotes e vestia os seus casacos enfeitados, a mãe a deixasse debruçada à janela, muito lânguida e faceira, trocando sinais com um amanuense da vizinhança, moreno, de óculos, o rosto picado de bexigas. Tinha fama no quarteirão e, à noite, grupos de rapazes postavam-se na calçada fronteira e, escandalosamente, atiravam beijos, mas Vidinha, para não perder o amanuense, batia com a janela, numa indignação pudica e rompia em impropérios, às vezes atirava cusparadas desprezíveis, mandava o João correr à pedra os galanteadores ou chamava Dona Ana que surgia à sacada iracunda, mostrando vassouras, ameaçando desancar o bando, cobrindo-o de insultos vis e subia ao segundo andar, esbaforida e colérica, para pedir aos rapazes uma reclamação nos jornais contra aquela calaçaria para que um dia ela se não deitasse a perder, quebrando a pau a costela de um daqueles desavergonhados.

A vida entre os rapazes corria tranqüila e farta. As refeições, a tempo e abundantes, eram gabadas sem reserva pelos inquilinos do segundo andar. Terrinas imensas de sopa, pratarrazes de carne: o arroz sempre corado, subia num alguidar; o assado era uma posta solene e ainda verdejavam saladas e frutas. O café recendente era saboreado no mirante, à fresca.

Era Leonor quem servia à mesa muito delambida, fugindo aos beliscões, posto que andasse sempre a esfregar nos rapazes o seu corpo magro de efebo, tresandando à cozinha. Ao menor aceno, porém, ameaçava:

— Não brinca! Eu me queixo ao juiz de orfe... Veja lá... E saía, com uma pilha de pratos, chuchurreando muxoxos.

Podia-se trabalhar folgadamente posto que, à distância de alguns passos, noite e dia, andassem locomotivas em manobra: trens que chegavam, trens que partiam e as velhas máquinas manobreiras, como cuidadosas donas de casa, indo e vindo, esbaforidas, dispondo os comboios que deviam subir para os subúrbios ou, em mais estirada corrida, para além das serras.

Carroções enormes, carregados, passavam pela rua rangendo, aos solavancos sobre as pedras mal dispostas; às vezes caíam em covas, as rodas chafurdavam, ficavam engasgadas nos buracos e os cocheiros, saltando das boléias, frenéticos, bradando, atiravam chicotadas aos animais que, sangrando, aos arrancos, tentavam safar o veículo sobrecarregado enquanto homens aos urros, agarrados aos raios das rodas, ajudavam com esforço.

Ao lado, numa oficina de carros, ressoavam malhos. Em frente, certa menina ruiva e vesga, muito serelepe, da manhã à noite martirizava inexoravelmente um piano fanho. Eram pregões de quitandeiros, alarido de mulheres e burburinho de farândolas. Por vezes gritos intercedestes confirmavam as atoardas de um crime: história de uma louca que estortegava, esbravejava em fúria seqüestrada em cárcere privado.

À tarde o rumor crescia: trens corriam abarrotados, caminhões vazios iam aos trancos, com estridor de ferragens; bondinhos passavam cheios. Os rapazes refugiavam-se no mirante e, sob a doçura do céu azul, onde a luz esmaecia, fumavam, conversavam, espairecendo os olhos por aqueles telhados vermelhos, vendo, à distância, a massa de verdura do parque da Aclamação, o grande quadrilátero do quartel e torres de igrejas, o zimbório da Candelária e os morros esmaltados de casas, alvas no verdor do arvoredo denso.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →