Por Machado de Assis (1858)
As asas agitara o negro sonho.
A erguê-lo corre o pregador Veloso;
Traz-lhe o douto vigário um copo d'água;
Um as janelas abre, outro da cama os lençóis revolvidos lhe
concerta,
Até que Almada, a fala recobrando,
Do sonho as peripécias e o desfecho,
Entre assustado e galhofeiro conta.
V
Ai, prelado infeliz! Verdade amarga,
Verdade, que não sonho passageiro,
Esbaforido o Lucas te anuncia.
Terrível golpe foi! Largos minutos
Atônito e caído sobre o leito
O prelado ficou, como se vira,
Por efeito de imenso terremoto,
A seus olhos cair toda a cidade.
Não era sonho então! Vencia a causa
O pérfido inimigo! Vai com ele
O imprudente Senado, e sem vergonha
Nem receio o governo ambos protege!
Tais idéias no cérebro do Almada
Confusamente rolam. Vinte vezes
Quer falar, vinte vezes abre a boca
Donde não saem mais que vãos suspiros
VI
Porém a Ira, a quem blasfêmias prazem,
A tempo chega e lhe desata a língua.
Qual da feia carranca de um céu negro,
De águas, coriscos, furacões pejado,
Se vê subitamente sobre a terra
Grossa chuva cair, e em pouco tempo
Encher amplas campinas, praças, ruas,
Tal da boca com ímpetos lhe saem
Injúrias, gritos, ameaças, mortes,
Em borbotões de coração subindo;
E as atentas orelhas alagando:
“Guerra declaro à gente do Senado!
Guerra ao governador! a todos guerra!
E se o céu não tem raios que os fulminem,
Nem abismos a terra que os engulam,
Eu cavo abismos, eu tempero raios,
E essa baixa ralé da espécie humana
Verá que, inda vencido, eu sou Almada!”
VII
Disse, e enfiando as mangas da batina
Que o cortesão Veloso lhe entregava,
Precipitadamente deixa a alcova,
E durante uma hora ou pouco menos
Meditou na desforra. Onça bravia
Numa jaula fechada não se move,
Não fareja com mais impaciência,
Mais aflita não busca uma saída,
Do que o grande prelado pela sala
Cogitando vagava. “Certamente
(Desta sorte o pastor consigo pensa)
O Senado, o Governo e o tolo Mustre
De mãos dadas estão; talvez o caso
Maquinado já fosse há muitos dias
Para me derrubar? Mas que outro golpe
Devo agora empregar naqueles biltres
A não ser enforcá-los? Que remédio,
Se a triunfar de mim eles alcançam,
A grande posição e o grande nome
Desta triste miséria hão de salvar-me?”
VIII
Nisto, o mísero Lucas, que não teve
Jamais o gosto de uma idéia sua,
Pela primeira vez sente brotar-lhe
Na solidão do cérebro vazio
Um alvitre. Ansioso corre a Almada,
Que ao ter notícia deste caso novo,
Com sincera alegria o cinge ao peito
E dos lábios lhe pende inquieto e sôfrego.
Assim no meio das revoltas águas
Do oceano que o vento sacudira,
Já sem forças um miserando náufrago
Olhos e mãos estende à derradeira
Tábua que lhe ficou. “Muito vos deve
(Diz o Lucas) a egrégia companhia
Dos padres de Jesus, e esse colégio
Que ali daquele outeiro vos contempla.
Uma mão lava outra, com finezas
As finezas se pagam. Se do voto
Depender do reitor a vossa causa
(Que é certamente voto de mão cheia
E trunfo superior aos demais trunfos) [20]
Vá sem demora Vossa Senhoria
Dos favores cobrar-lhe o pagamento,
Que a vitória final é toda nossa.”
IX
A tais palavras o prelado sente
Pelas veias coar-lhe um sangue novo,
E toda reviver-lhe a derradeira
Quase extinta esperança. Então nos braços
O salvador amigo recolhendo,
Com lágrimas de gosto assim lhe fala:
“Oh! três e quatro vezes mais ditoso
Que o destemido Aquiles, que da boca
Do divino cavalo ouvia apenas
Anunciar-lhe a sua morte próxima,
Ouço da tua o próximo triunfo!”
X
Disse, e à pressa engolindo alguns bocados
Do já frio jantar que há muito o espera,
Das insígnias do cargo se reveste,
Entra na cadeirinha e aos pajens manda
Que ao colégio o conduzam sem demora.
Velozes partem, e suando em bica,
Vão trepando a ladeira, e à casa chegam
Que ali, no viso da colina, encerra
Em seu discreto seio um garfo ilustre
Da vasta, onipotente companhia.
Desce a certa distância o grande Almada,
Encara a porta, e trêmulo de susto
Alguns minutos fica; mas vencendo
O natural terror que lhe infundiam
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.