Por Euclides da Cunha (1902)
Nenhum outro desastre ocorrera. Guardavam-se, mau grado tiroteios diários, as posições conquistadas. A Brigada Girard e o Batalhão Paulista tinham ido a tempo de preencher os claros da linha rarefeita do sítio. Com este reforço coincidiam os primeiros sintomas de desanimo entre os rebeldes: não batia mais com a sua serenidade gloriosa o sino da igreja velha, que caíra; não mais se ouviam ladainhas melancólicas entre os intervalos das fuzilarias; cessavam os ataques atrevidos às linhas; e à noite, sem o bruxulear de uma luz, o arraial mergulhava silenciosamente nas sombras. Reproduzia-se a atoarda de que o Conselheiro lá estava, agora, coacto, preso pelos próprios sequazes, revoltados pelo intento, que manifestara, de se entregar, dispondo-se ao martírio.
E citavam-se pormenores incidindo todos no denunciar o afrouxamento rápido da conflagração.
PRISIONEIROS
Os novos combatentes imaginaram-na extinta antes de chegarem a Canudos. Tudo o indicava. Por fim os próprios prisioneiros que chegavam, e eram, no fim de tantos meses de guerra, os primeiros que apareciam. Notou-se apenas, sem que se explicasse a singularidade, que entre eles não surgia um único homem feito. Os vencidos, varonilmente ladeados de escoltas, eram fragílimos: meia dúzia de mulheres tendo ao colo crianças engelhadas como fetos, seguidas dos filhos maiores, de seis a dez anos. Passavam pelo arraial, entre compactas alas de curiosos em que se apertavam fardas de todas as armas e de todas as patentes. Um espetáculo triste.
As infelizes, em andrajos, camisas entre cujas tiras esfiapadas se repastavam olhares insaciáveis, entraram pelo largo, mal conduzindo pelo braço os filhos pequeninos, arrastados.
Eram como animais raros num divertimento de feira.
Em volta cruzavam-se, em todos os tons, comentários de toda a sorte, num burburinho de vozes golpeadas de interjeições vivíssimas, de espanto. O agrupamento miserando foi por algum tempo um derivativo, uma variante feliz aligeirando as horas enfadonhas do acampamento.
Mas acirrou a curiosidade geral, sem abalar os corações.
DIANTE DE UMA CRIANÇA
Um dos pequenos — franzino e cambaleante — trazia à cabeça, ocultando-a inteiramente, porque descia até aos ombros, um velho quepe reúno, apanhado no caminho. O quepe largo e grande demais, oscilava grotescamente, a cada passo, sobre o busto esmirrado que ele encobria por um terço. E alguns espectadores tiveram a coragem singular de rir. A criança alçou o rosto, procurando vê-los. Os risos extinguiram-se: a boca era um chaga aberta de lado a lado por um tiro!
As mulheres eram, na maioria, repugnantes. Fisionomias ríspidas, de viragos, de olhos zanagas e maus.
Destacava-se, porém, uma. A miséria escavara-lhe a face, sem destruir a mocidade. Uma beleza olímpica ressurgia na moldura firme de um perfil judaico, perturbados embora os traços impecáveis pela angulosidade dos ossos apontando duramente no rosto emagrecido e pálido, aclarado de olhos grandes e negros, cheios de tristeza soberana e profunda.
Esta satisfez a ânsia contando uma história simples. Uma tragédia em meia dúzia de palavras. Um drama a bem dizer trivial, então, com o epílogo invariável de uma bala ou de um estilhaço de granada.
Postas na saleta térrea de casebre comprimido, junto ao largo, as infelizes, rodeadas pelos grupos insistentes, foram vítimas de perguntas intermináveis.
Estas deslocaram-se por fim às crianças. Procurava-se a sinceridade na ingenuidade infantil.
OUTRA CRIANÇA
Uma delas, porém, menor de nove anos, figurinha entroncada de atleta em embrião, face acobreada e olhos escuríssimos e vivos, surpreendeu-os pelo desgarre e ardileza precoce. Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio, quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado sobraçando a Comblain, a criança interrompeu a algaravia. Observou, convicto, entre o espanto geral, que a "comblé" não prestava. Era uma arma à toa, "xixilada": fazia um "zoadão danado", mas não tinha força. Tomou-a: manejou-a com perícia de soldado pronto; e confessou, ao cabo, que preferia a manulixe, um clavinote de "talento". Deram-lhe, então, uma mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinco infantil predileto.
Perguntaram-lhe se havia atirado com ela, em Canudos. Teve um sorriso de superioridade adorável:
"E por que não ! Pois se havia tribuzana velha!... Havera de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando as praças ?!"
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.